A Náusea, de Jean-Paul Sartre

Foto de: Thierry Ehrmann. Flickr: home of caos

 

Sartre, famoso escritor existencialista francês, conhecido mundialmente por ter sido a primeira pessoa na história a rejeitar um prêmio Nobel, nos presenteia com esta obra clássica que realmente faz jus ao título. Sim, eu passei muito mal lendo este livro.

Não cabe em um texto de análise breve, como este, expor a pulsante complexa onda dos movimentos literários ao longo do tempo, mas devo lembrar o amigo leitor que o existencialismo, do qual Sartre é membro, expõe questões pontuais sobre a existência do homem, sua utilidade em termos teleológicos e a necessidade de ser o que o homem é ou pensa ser em sua relação com o mundo. Imaginem então, como este tema bem trabalhado ao longo de mais de 200 páginas podem causar náuseas, literalmente, em quem o lê.

Sobre o livro: Antoine Roquetin, personagem principal, sofre constantes “náuseas” no decorrer da narrativa, impostas como condição física em consequência dos estranhos e voláteis pensamentos que o afligem de forma nitidamente filosófica. Uma das primeiras náuseas ocorre quando o personagem volta a residir na França e se questiona sobre o porquê de todas aquelas pessoas rindo em um restaurante, sobre o porquê de ali se apresentarem de forma tão grotesca, como um sinal do fracasso da humanidade em colidir com as grandes questões frontalmente; o incomodo de Antoine é justamente esse: todas as atividades, conversas, prazeres e dores não passam de um disfarce malfeito para sustentar essa fraqueza humana em não saber nada sobre si mesma . “Para que tudo isso? ” É a pergunta frequente que Sartre tenta, e consegue, impor ao leitor. E aqui começa a minha náusea pessoal.

O livro é bom, extremamente bem escrito, e independente da tradução da Saraiva de Bolso não ser a minha favorita, apresenta uma escolha lexical adequada, logo foi fácil perceber que quando Antoine se entorpecia de pensamentos existencialistas, eu, Vitor, também me enchia deles. Ao mesmo tempo que minha vida pessoal passava por graves crises, Antoine me fazia crer que tudo aquilo era superficial e eu me sentia pior, como se aquela crise não apresentasse nada de novo no fim das contas. Quimicamente falando, ler A Náusea foi como aplicar um bom catalisador nessa reação em cadeia da minha vida pessoal.

Ao final do livro, eu atingi conclusões próprias de grande valor sobre a vida e sobre como se deve questionar o mundo. Ler Sartre me fez passar um pouco dos limites do adequado, mas isso é sempre bom, voltamos mais fortes e com os limites psicológicos melhor estabelecidos, e melhor, aprendemos até onde é adequado se questionar sobre tudo que se apresenta ao nosso redor, fora das correntes meramente político-econômicas, com segurança para deitar sozinho na cama ao final do dia, sem balde do lado.