Escrever: o trabalho, a inspiração e o Conde Drácula

Dracula Prisoner of Frankenstein (1972)

Sempre fui um fiel algoz do sistema de seleção utilizado pelas universidades públicas brasileiras. O vestibular, mesmo com as cotas, ainda intensifica as execráveis diferenças sociais e econômicas, tornando a educação, que deveria ser emancipatória, em mero veículo de reprodução do nefasto desenvolvimento histórico pelo qual passamos. Mas, como era previsto, tive que me sujeitar às exigências dessa prova para ingressar no curso com o qual sonhava. E, infelizmente, tenho que admitir, o odioso vestibular causou algo de bom em mim, pois me fez encontrar duas das minhas maiores paixões: a leitura e a escrita.

A rotina das diversas redações semanais me fez criar o prazeroso hábito de ler tudo aquilo que me caia às mãos e de escrever muito, a ponto de às vezes poder brincar com essa tarefa e me dar o luxo de fazer sonetinhos com as confusões das minhas ideias adolescentes. Cheguei à prova de redação bastante confiante, mas, claro, temeroso. Esses sentimentos reunidos com o nervosismo próprio dessa fase da vida se tornaram ainda mais pungentes com o calafrio que senti quando li o tema proposto: “Escrever: o trabalho e a inspiração”.

A possibilidade de dissertar sobre a escrita me pareceu como escrever, naquela prova, sobre a garota pela qual era apaixonado, mas, com o fator bizarro de falar sobre os defeitos dela. Não sem motivo, pensei muito sobre a escrita para o vestibular, aquela atividade que os cursinhos tentam condensar como um raciocínio automático na mente de seus alunos. Elaborei, então, a tese de que a escrita é naturalmente um movimento produzido pela inspiração, mas as imposições da vida a reduz ao mero trabalho formal. Assim, comparei o impulso apaixonante das poesias de Vinícius de Moraes com o vestibulando que elabora uma redação desinteressada por estar pensando nos exaustivos exercícios de física do dia seguinte. Achei pertinente, ainda, colocar uma passagem que retirei do livro: “Showrnalismo: a notícia como espetáculo”, na qual José Arbex Júnior narra um dos dias mais memoráveis como redator da Folha de São Paulo.

O jornalista revela que, no início da década de noventa, o então editor chefe e dono do jornal Otávio Frias Filho mandou uma carta aos redatores utilizando uma metáfora entre jornalistas e o Conde Drácula. Segundo a história de Bram Stoker, o vampiro não poderia entrar na casa de suas vítimas sem que fosse convidado, portanto, tinha que seduzi-las. Para Otávio Frias Filho, o jornalista deve escrever de maneira sedutora para que, assim como fazia Conde Drácula, seja convidado a entrar na casa do leitor. Evidente que não cheguei até aqui sem motivo, meu caro amigo leitor. Não sou jornalista e tampouco sedutor, mas, ainda assim, espero que com esse breve relato sobre minha paixão pela leitura e pela escrita, eu tenha conseguido te seduzir ao menos um pouco, de tal modo que me permita entrar na sua casa semanalmente para discutirmos sobre literatura e outros infinitos temas.