Europa e Oriente Médio: de quem é a crise de refugiados?

Foto de: Darrin Zammit Lupi

Nos últimos anos, a Europa foi protagonista de inúmeras dificuldades que colocaram em cheque, em diversos momentos, o futuro do bloco: passou por uma intensa crise de liquidez, reflexo do estouro da bolha no mercado imobiliário estadunidense e, posteriormente, por uma crise de dívida pública, decorrente da instabilidade financeira e do sistema de integração escolhido pela Zona do Euro.

Não obstante, a Europa agora é palco de novas tribulações. No dia 19 de abril, uma embarcação afundou no Mar Mediterrâneo, matando mais de 700 refugiados que tentavam a travessia para a costa europeia. Tragicamente, este não foi um episódio isolado. Milhares de imigrantes tentam a travessia entre o norte da África e a costa de países europeus de maneira clandestina, viajando em porões de embarcações superlotadas e sem condições mínimas de segurança, geridas por contrabandistas.

Nos primeiros cinco meses de 2015, mais de 1.500 pessoas morreram após tentarem a travessia pelo Mar Mediterrâneo, números 50 vezes maiores que no mesmo período de 2014.

Diante desse cenário, representantes da União Europeia se reuniram para inibir o trabalho desses contrabandistas. Apesar do primeiro-ministro britânico, David Cameron, ter reforçado a culpa das mortes sobre os traficantes, o problema é mais complexo e compreende outras regiões do globo.

Para cada crise de migração de refugiados existe, do outro lado da equação, outra crise em desdobramento. Na atual situação, tal crise envolve conjunturas políticas delicadas e complexas no norte da África e Oriente Médio: a disputa de dois governos rivais e ideologicamente divergentes pelo vácuo de poder instaurado na Líbia desde a queda de Muammar Gadhafi; e a insurgência do auto-intitulado Estado Islâmico (ISIS) nos territórios de Iraque e Síria.

O aumento dos refugiados que buscam chegar à Europa é oriundo, em grande parte, destas duas regiões em conflito. Ironicamente, ambas as conjunturas podem ser traçadas de volta à Europa, através das ações da OTAN, onde ferramentas de resolução de conflitos são empregadas sob a justificativa da “responsabilidade de proteger“.

Na Líbia, a proteção de civis e a pretensa assistência humanitária serviram de cortina para a queda de Gadhafi e a mudança do regime, através da exportação de um modelo ocidental coerente com os interesses dos membros da OTAN. A partir da derrocada do ex-ditador, no entanto, esqueceram de sua “responsabilidade ao proteger”, limitando as medidas de reconstrução da paz a ações paliativas, e permitindo que uma disputa pelo vácuo de poder culminasse em milhares de refugiados que buscam a costa europeia diariamente.

A atual conjuntura na Síria e Iraque remonta às diversas intervenções realizadas na região do Oriente Médio desde o início da Guerra ao Terror, e, ainda que seja muito cedo para analisar a intervenção da OTAN sobre o ISIS, é possível que elementos da intervenção na Líbia se repitam.

Assim, enquanto a Europa terceiriza a responsabilidade sobre a crise de refugiados, ignora que, de certo modo, alguns membros do continente, agindo através da OTAN, são responsáveis não somente pelos seu próprios problemas migratórios, como por problemas humanitários muito mais profundos.