“Meu amor, o amor é livre por natureza”

E o acariciou, tão intensamente como fazia todos os dias, com aquela estranha força ao apalpar de quem parecia nunca o veria mais. E a história dos dias passados parecia escorrer por entre seus dedos suados, que haviam acabado de se esbaldar nas curvas daquele corpo num ato entorpecido de paixão e desejo.
Os lençóis se posicionavam de uma maneira desajeitada por debaixo das pernas entrelaçadas, mas porque não havia tempo para organizá-los. Já que o tempo era realmente precioso para quem vivia naqueles moldes.
Uma casa em que há muito se tocavam músicas de amor e se ouvia a voz de Vinícius dizendo: “De tudo ao meu amor serei atento, Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto, Que mesmo em face do maior encanto, Dele se encante mais meu pensamento.”
Quanto encanto! Quem não amara assim tão ingenuamente na vida que não ousara dizer poemas sem as vezes sequer compreender perfeitamente a semântica? E da última vez, ele disse:

“Que lindo és, meu amor, quando entoa estes versos ao pé do meu ouvido. Não tema, por favor, andar pelas calçadas aí a fora, que o medo já morreu há muito nestes lençóis bagunçados quando esboçamos o primeiro beijo.
Não tema meu amor, que os olhos dos outros nada vêem além daquilo que enxergam de cores e de trejeitos e de estereótipos. E por isso não vêem meus sentimentos…
Porque o sopro que arrepia meu corpo, me entontece todas as noites e me desperta taquicardias indescritíveis como aquelas descritas nos mais profundos romances, é tão sinestésico que chega a ser perfeitamente compreensível que tamanha caretice seja incapaz mesmo de entendê-lo.
Não chora pelo que alguns te dizem, porque o poema das nossas carícias é tão mais gostoso de ser ouvido. Quando àqueles quiser dar ouvidos, lembra-te dos meus gemidos e sorri que o gozo do riso produz um som que contagia os alegres e consome de rancor os que desejam tua infelicidade.
Não tema meu amor, porque não posso lidar com teu medo, ou seria preciso prender-te aos meus braços e prender-te aos meus braços seria um contrassenso à própria liberdade que pleiteamos.
Também não tema, pois embora não possa evitar que encontres com a crueldade, te posso assegurar que quando tiveres coragem para dizer aos outros que és, encontrará por aí também muitos que a ti compreendem e toleram e respeitam, e, embora eu me enciume, talvez até te amem.
E estes, te asseguro, serão mais coloridos e felizes e maduros, meu amor. E os que com eles convivem, ainda que não como nós, é porque souberam se desvencilhar desse conservadorismo que sobrevoa nossas cabeças e tenta vigiar nossos pensamentos mais íntimos.
Mas não tema também essa redoma de imposições morais! Pois te digo, elas não conseguem vigiar nosso tesão, tampouco o resto de nossos sentidos.
Mas o mais importante, meu amor, jamais, jamais tema a ti mesmo. Jamais duvide da tua capacidade de enfrentar as maledicências. Jamais tema ter vergonha das camas onde tu deitares. Jamais nega teus gostos e teus afetos, porque são parte integrante de quem verdadeiramente és.
Meu amor, jamais te esconda, porque só encontrará tantos quantos forem dos nossos, quando andares com a cara lavada.
Mas, sobretudo, não te prenda a definições, ainda que tenha por certa tua sexualidade.
Saiba que o amor é livre por natureza, ainda que os rótulos o tentem enquadrá-lo. Porém use os rótulos, se apenas através deles conseguir fazer-te entender. Não meça esforços para fazer-te entender! Mas jamais permita que estas mesmas armadilhas te aprisionem em ti mesmo.
Tu, que sabes o que é o amor de outro homem, que se maravilha com o amor de duas mulheres, que vê tamanha e enorme beleza na bissexualidade, que se atrai pela magia da transsexualidade e que ainda insiste em se emocionar com as bodas de diamante dos seus avós heterossexuais, não tema, porque tu és ser humano por inteiro, e ainda acredita no amor. E tu, meu amor (como eu) não estás sozinho!”

E entornou o último gole de vinho antes de abrir a porta para que ele seguisse, sozinho, até a porta de casa, pelas calçadas homofóbicas delirantes, que tão logo pareceram mais fáceis de serem pisoteadas…