Por que distopias?

Distopia, grosso modo, é o contrário de utopia: é aquele futuro em que as coisas dão erradas e em que se expõem os grandes defeitos da coisa linda que é a humanidade. De maneira geral, o estilo parte dos valores em voga em certo tempo. Eles são ampliados e distorcidos, de modo a criar realidades bizarras a um primeiro olhar, mas cuja análise faz perceber que são fundadas nos mesmos preceitos que regem ou já regeram a nossa sociedade.

Ler distopias é uma ótima maneira de problematizar as bases do comportamento humano. Qualquer livro que siga essa premissa certamente fará o leitor pensar sobre pelo menos um aspecto cotidiano, questionando a origem, a quem serve ou mesmo a utilidade dessa conduta.

As distopias de lançamento mais recente, quase sempre voltadas para o público jovem adulto (Jogos Vorazes, por exemplo), partem dos valores em voga atualmente. No entanto, também vale a pena voltar o olhar para as distopias escritas no século passado, mormente grandes clássicos como 1984 e Admirável Mundo Novo.

Os autores desses livros falavam de nós. Escreveram principalmente na primeira metade do século XX, olhando para o futuro em vista dos acontecimentos então recentes — as duas Guerras Mundiais, as ideologias fascistas e comunistas, o avanço rápido e aparentemente desenfreado da ciência, entre outros. Assim, não tinham a mais otimista das perspectivas acerca do que o mundo se tornaria, de modo que suas obras não são exatamente leves. O mais impressionante sobre esses livros é o quanto acertam em cheio em alguns pontos, principalmente quanto à mentalidade criada em torno de alguns aspectos da vida.

Em geral, não conheci nenhuma distopia dessa fase que não valesse a leitura. Assim, indico  todas elas. No entanto, para ser mais específica, recomendo fortemente a leitura de uma obra uma que é pouco conhecida em relação às outras do mesmo período: A guerra das salamandras, de Karel Capek.

É válido dizer que a repercussão do trabalho de Capek já atingiu a todos, embora muitas pessoas sequer saibam. Foi ele o primeiro a usar a palavra robô no sentido que a empregamos atualmente, em uma peça publicada em 1920. Já por isso é possível perceber o quanto ele era visionário.

A guerra das salamandras trata de um futuro em que um capitão de navio descobriu uma espécie de salamandras inteligente, capaz de andar, se comunicar e produzir. Os conflitos giram em torno de como a humanidade lida com os desdobramentos da descoberta. Mantendo o tom pessimista, critica o fascismo, o Holocausto, a corrida armamentista, o racismo, e inclusive antecipa a discussão do que hoje chamamos de especismo.

A narrativa é enriquecida por documentos, trechos de reportagens, correspondências, etc., que reforçam o tom realista da obra. Além disso, diferente dos demais livros citados aqui, A guerra das salamandras tem um tom engraçado. Sabe aquela ideia de que seria cômico se não fosse trágico? Então, esse livro tem um pouco dos dois. Definitivamente, vale a leitura.