Virtuosismo inventivo e debochado

By ArtBrom (Flickr) [CC BY-SA 2.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0)], via Wikimedia Commons

 

Uma das maiores revelações dos últimos anos dentro do cenário do fusion, gênero de música instrumental que mescla elementos de diversos estilos, principalmente o rock e o jazz, é a banda The Aristocrats. Formado em 2011, o grupo é composto pelo guitarrista Guthrie Govan, o baixista Bryan Beller e o baterista Marco Minnemann, e já lançou dois álbuns de estúdio – The Aristocrats (2011) e Culture Clash (2013) -, dois discos ao vivo – Boing, We’ll Do It Live! (2012) e Culture Clash Live! (2015) – e atualmente trabalha no seu terceiro registro em estúdio, intitulado Tres Caballeros, com previsão de lançamento ainda para este ano.

Govan, Beller e Minnemann não só demonstram entrosamento musical tremendamente incomum, mas também grande proficiência nas diversas linguagens musicais pelas quais transitam com extrema desenvoltura. Músicas como “Bad Asteroid” (Govan), “Furtive Jack” (Govan), “Boing!… I’m in the Back” (Minnemann), “Louisville Stomp” (Beller) e “Dance of the Aristocrats” (Minnemann) ilustram bem a abrangência dos interesses musicais desse trio. Isso porque elas são composições que aliam extrema precisão técnica e rítmica a uma grande inventividade melódica, produzindo assim ideias musicais bastante fluidas. Além do mais, o virtuosismo desse trio fica de fato patente no talento deles para tocar de maneira dinâmica e explorar nuances expressivas na criação de diferentes climas e texturas musicais, o que fica particularmente claro na belíssima balada “Flatlands” (Beller).

Contudo, a característica mais marcante desse trio de músicos altamente experientes e maduros é certamente a combinação precisa de virtuosismo e deboche presente em muitas das suas composições. De fato, é justamente quando Govan, Beller e Minnemann deixam seu senso de humor musical beirar o absurdo que suas composições se tornam mais interessantes. É o que acontece, por exemplo, com a música “Blues Fuckers” (Minnemann), na qual eles deliberadamente subvertem as convenções do blues de doze compassos tradicional. Outro belo exemplo da irreverência musical desse trio é a hilária “Erotic Cakes” (Govan). Originalmente gravada no disco solo homônimo de Govan, de 2006, as performances ao vivo dessa música são geralmente marcadas por improvisos que incorporam desde passagens instrumentais intrincadas a ruídos produzidos com telefones celulares e brinquedos facilmente adquiridos em qualquer pet shop, como frangos ou porquinhos de borracha.

No limite, esse trio faz uma mistura de inventividade e desprezo irônico pela austeridade comumente associada ao fusion que só atesta a grande capacidade desses instrumentistas de fazer música de mais alta qualidade nos contextos mais inusitados, o que é realmente impressionante. Embora possuam um domínio técnico realmente avançado dos seus respectivos instrumentos, Govan, Beller e Minnemann nunca abandonam a premissa básica de que o que importa, acima de tudo, são as ideias musicais que o grupo busca construir e expressar. Por isso mesmo é que eles conseguem subverter de modo tão contundente o senso comum de que música instrumental é apenas “música de músico”. Em suma, The Aristocrats é uma daquelas bandas paradigmáticas que, por isso mesmo, merece ser ouvida com bastante atenção.

The Aristocrats Jazz Festival in Germany: https://www.youtube.com/watch?v=XSdYHFZwS-I