O balcão dos copos sujos ou meditações de botequim sobre a função antropológica do bar

David Teniers - Taverna s paroi Tanz (1645)

Um velho dono de bar falece aos 78 anos. Até então, nada que mereça ser estampado numa manchete de jornal. Quando muito uma breve nota de falecimento em um rodapé de página de um jornal local mais em tom de aviso aos clientes do que de lamento. Durante longos anos, naquele espaço apertado e sujo, vendia-se barato muita alegria e esquecimento. Tornou-se parte das memórias de gerações que por ali passaram, de bêbados profissionais a jovens universitários iniciantes que lá iam aprender a longa e dolosa arte da embriaguez, com ou sem motivo, a euforia do primeiro copo e a tristeza do último gole, já alto na madrugada. Desde a notícia, vi muitos colegas prestarem suas homenagens, lembrarem episódios, narrarem seus feitos. Por isso ocorreu-me que o evento talvez merecesse mais algumas linhas, razão pela qual dedico esse meu primeiro texto que aqui escrevo ao saudoso bar do Seu Zé, que acompanhou a mim e a tantos outros em meus primeiros anos da Universidade. Contudo, vale esclarecer que os lá nunca pisaram ou os que aqui não habitam, ainda assim encontrarão razões para prosseguir com a leitura. Não quero aqui desdobrar memórias, revirar lembranças empoeiradas do baú, o que em nada serviria a leitor algum exceto a minha própria nostalgia. Ademais, nada teriam de interessante, uma vez que eu mesmo, quando me sentei pela primeira vez naquelas cadeiras de plástico, não tinha (e talvez ainda não tenha) muito o que contar. Sendo assim, repito, em que um velho bar deveria ser merecedor de nosso precioso tempo e de nossa tão cara atenção? Quem sabe porque tal episódio, embora aparentemente trivial, parece-me recheado de significado.

Pessoalmente, sempre achei que a morte de um dono de boteco ou fechamento de um bar são eventos de grande importância e causa de justificada comoção. Possivelmente não passe de romantismo incontido, mas o fato é que sempre acreditei que em todo balcão de bar se escreve um pouco da história apócrifa do homem e do mundo. Não essa história dos grande homens, dos grandes feitos, posto que esses geralmente se embebedam em salões de baile, com taças de cristal à mão, mais condizentes com sua pretensa glória. Refiro-me à história dos homens comuns, à história da vida privada, àquela intimidade que se partilha junto com a bebida, às narrativas repletas de pessoalidade e, porque não dizer, carregadas do sentimento de tragicidade da vida. Trabalhadores, vagabundos, boêmios empenhados ou transeuntes de uma noite, homens sérios, importantes ou comuns, traídos, apaixonados, céticos, cínicos, esperançosos, malucos, intelectuais, poetas, músicos, desiludidos, descontrolados, revoltados, mansos, cordiais, cavalheiros, solitários, e, nesse caso, e especialmente, estudantes (que ainda tinham um pouco de tudo isso). Por lá passavam homens com muita, pouca ou mesmo nenhuma filosofia, gente de toda origem, credo, unidas todas pela insaciável sede humana. Na bagagem apenas as histórias, as experiências e, o mais, relevante, os relatos. Sim, nesses lugares anacrônicos e ultrapassados ainda se pratica a oralidade, ainda se cultiva a narrativa, a troca de história, e por consequência de experiências. Não que fosse espaço para grandes aprendizados, elevadas reflexões ou elaborados processos mentais, já que o próprio dono muitas vezes se equivocava na matemática básica, que insistia em fazer sem calculadora. Ali havia apenas esse saber cotidiano, banal, às vezes engraçado, às vezes nitidamente equivocado, mas sempre repleto de significado e de humanidade.

Muito embora tenha prometido evitar as armadilhas da memória, peço licença para evocar apenas um breve episódio, já quase apagado, mas que veio-me com força tão logo, inspirado pela triste notícia, resolvi revisitar aquele longínquo ano da chegada. Estava eu sentado no bar, na companhia de um ou dois amigos, em um ameno dia de ócio semanal, refletindo sobre a metafísica do nada. Um homem de meia idade, passa por nós e, dizendo boa noite, dirige-se ao balcão. Notando o cliente, o anfitrião, já certo do pedido, tira da pia um copo ainda úmido, apanha uma garrafa de conhaque barato amontoada numa estante sobrecarregada de outras tantas raridades de preço módico e serve-lhe a primeira dose, sem que fosse preciso sequer uma palavra. Talvez fossem velhos conhecidos, ou quem sabe os anos de experiência teriam dado ao velho senhor a incrível habilidade de decifrar na fisionomia do cliente exatamente a bebida de que se precisava.

Tomados alguns goles, o homem, indiferente aos presentes, começou a contar a história de sua vida. Contava e lembrava apenas para si, sem pretensão de ser ouvido, sem precisar de platéia ou de atenção. Talvez o que o movesse fosse a esperança de que seu relato não se perdesse, que sua história ficasse de algum modo registrada nos anais daquele respeitável estabelecimento e sua memória gravada nas páginas não escritas que todo bar, creio eu, sempre guarda em meio aos muitos cascos de cerveja vazios e às estantes de bebidas semi-cheias. De fato, sua história era tão comum que talvez se passasse por um relato anônimo, mas dita em sua própria voz, com sua própria emoção, no entanto, tornava-se única. Enquanto limpava o balcão com um velho trapo de pano, o velho dono do bar ouvia a tudo, com um misto de atenção e desinteresse, afinal, não era uma cena nova para alguém de sua experiência. Escutava a todos sempre com igual profissionalismo. Terminada a história, o homem virou uma última dose, deixou uma nota amassada sobre o balcão e saiu sem aplausos, nem gritos, nem vaias, deixando apenas suas digitais no copo sujo e um pedaço de sua vida sobre o balcão. Não o encontrei mais nem naquele nem em outros bares, e durante certo tempo perguntava-me o que teria sido feito daquele senhor.

O fato é que sempre havia ali um clima de cumplicidade espontânea, de naturalidade e desprentensão. Os que iam beber a tristeza dividiam mesa com os que brindavam à alegria ou aqueles que viravam um copo simplesmente por não terem nada melhor que fazer em um dia comum. A simplicidade garantia a todos o seu quinhão de liberdade, autenticidade e de anonimato, de licença para ouvir ou falar, para contar a vida, celebrar uma vitória ou chorar uma decepção. Ninguém se preparava ou se arrumava para ir a um recinto daqueles, apenas parava, sem grandes expectativas senão de encontrar uma cerveja gelada num fim de tarde de verão ou uma bebida quente com que aquecer a alma numa noite fria. De fato, nunca ninguém foi tratado diferentemente por falar de determinado jeito, comportar-se de alguma forma ou até mesmo por portar determinada roupa, sobretudo porque um verdadeiro bar sempre resiste a modismos. Aos olhos de deus, todos os homens são iguais, aos de Baco, então…

Pergunto-me, então, onde terão ido parar os bêbados de botequim, onde se deposita hoje os relatos da vida comum? Onde se encontra espaço e liberdade para falarmos com a sinceridade de um bêbado sobre nossas vidas, nossos sentimentos e afetos? Onde nos sentimos à vontade para sermos quem verdadeiramente somos? (O Facebook não vale, é claro) Nos guardanapos, não raro, encontrava-se até um poema anônimo ou uma letra de canção aguardando uma melodia. Onde terão ido parar a filosofia de boteco e as angústias da existência banal?

Andando pela cidade não encontro mais botecos baratos. Seu Zé fez parte de um grupo de resistentes que ainda acreditavam que um estabelecimento daquela natureza não era uma questão de empreendimento, de propaganda ou de vultuosos investimentos, era uma questão de opção de vida, quase uma sina, uma escolha de dedicar-se a algo. E talvez, equívoco do nosso tempo, a vida para ser bem vivida não precise obrigatoriamente ser dedicada a causas que se traduzam em altas cifras. A velha imagem do homem atrás de um balcão de um botequim de esquina parece ter perdido seu encanto, tornou-se, aos nosso olhos ambiciosos, a imagem da estagnação, algo inaceitável ao nosso tempo. Nos poucos bares que ainda restam, bebem homens marcados com o sinal do fracasso e jovens de quem ainda não se pode esperar muito. Contudo, o verdadeiro escândalo é o da simplicidade, a simplicidade que hoje parece nos chocar, afrontar um modelo de vida pautado na exploração e no esgotamento da imagem, na auto-promoção e no sucesso. A simplicidade nos constrange porque denuncia o vazio que nos persegue e ronda mesmo os maiores empreendimentos.

Os velhos botequins escuros deram lugar a charmosos bares, ou barzinhos, na gíria comum, gastropubs, festas e baladas, onde se vendem toda sorte de experimentações gourmet e onde a alegria, muitas vezes, é obrigatória, paga no cartão de crédito. Competem por uma clientela pouco ou nada fiel, atraída apenas pelo cheiro da novidade. Obviamente que nada tenho contra os novos padrões gastronômicos ou higiênicos (muito embora tenha a certeza de que uma visita não agendada a qualquer cozinha comercial sempre revelará segredos que os olhos não gostariam de ter visto, embora o coração já soubesse), mas não se trata de uma questão de limpeza. A limpeza que se operou talvez tenha ido a fundo demais.

Nesses novos espaços da sociabilidade, já não se aceitam mais os bêbados, os românticos, loucos ou desiludidos. Onde então terá ido parar toda essa gente? De repente, o sentar-se à mesa para partilhar a vida tomou dimensões de um evento que demanda preparação, planejamento, e, sobretudo, muito dinheiro na carteira ou um bom limite no cartão. Como tal, decorre que agora acontecimentos banais, como beber às sextas-feiras, precisam ser justificados, supervalorizados para que valham cada centavo do árduo trabalho com que ganhamos o direito de frequentar esses seletos meios, o que, talvez explique a tamanha necessidade de ostentação. A paquera dá o tom da noite e dita a dinâmica do espaço. Um verdadeiro show de autoconfiança e impessoalidade. Apenas pessoas arrumadas, maquiadas, ensaiadas, vestidas com o que tem de melhor, obcecadas com a própria imagem. Nunca se viu tanta gente bem resolvida nesse mundo, aliás, como se pessoas tão bem resolvidas e fortes precisassem mesmo de qualquer tipo de muleta social ou elixir encorajador. Falam de coisas sérias, trabalho, relacionamento, riem e gesticulam com segurança si, exibem-se, sem contudo implorar por atenção, quase que em uma coreografia ensaiada. Não há tédio, nem dúvida, nem indagações, nem angústias. Todos estão cheios de certezas e de verdade. No fundo, talvez a única verdadeira paixão seja a paixão e a vontade com que se embriagam até a inconsciência, talvez apenas com mais rapidez e menor romantismo. Precisamos beber rápido.

Ora, fico-me perguntando, a partir de minha própria experiência, quando foi que esperamos alguma coisa de um bar de esquina em uma noite de quarta-feira, se muito o resultado de um jogo de futebol, acompanhado com atenção, mas sem muita euforia. E especialmente porque nunca se esperava muito, éramos sempre surpreendidos por acontecimentos e ocorrências que beiravam o absurdo e o inesperado. Nada de convenções ou padrões, apenas o caos do mundo em coexistência. A vida só pode acontecer verdadeiramente onde há disposição para tal. A ideia que fica é a de que hoje não temos tempo a perder e, por isso, mesmo o divertimento deve adaptar-se às exigências da vida moderna. Mas, haverá melhor tempo do que aquele que se perde?

Onde terá ido parar o silêncio, a música cafona de fundo tocada em um rádio de válvula? Músicos mal valorizados, quase despercebidos, produzem o som com que hoje evitamos o desconforto do silêncio ou do enfrentamento do nosso semelhante. No barulho e na agitação das modernas boemias as pessoas sequer se ouvem, falam alto e lançam apenas algumas frases soltas no ar. Na meia-luz ou na escuridão completa não temos mais de nos olhar. Aliás, bom mesmo que não se possa conversar, pois quem teria paciência para tanto? Quem toleraria tamanha ousadia? De repente o velho senhor do balcão pareceu-me o mais sensato e coerente dos homens.

Dentre os poucos bares que sobrevivem, os que sobram ainda provam sua capacidade de humanizar a vida comum. Tive a sorte de poder frequentar alguns, em especial aquele, do saudoso Seu Zé, que tornou-se parte da vida de gerações inteiras. E a questão que me persegue agora é: se ainda existisse, seja aquele um ou qualquer outro, será que as novas gerações, ou mesmo as velhas, ainda os frequentariam? Ainda teremos motivos para sentarmo-nos à mesa de um botequim de quinta?

Em todos meus poucos anos de botequim, creio nunca ter bebido em um copo completamente seco. Ainda que à primeira vista possa parecer algo pouco civilizado, desleixo ou deslize, talvez haja uma pequena sabedoria implícita nesse hábito. É preciso um pouco de tempo, as gotas, de alegria ou de tristeza, sempre evaporam por sua conta. Claro que deixam sua marca no copo, mas ainda assim evaporam. De repente então, só me deparo com um lindo mundo de copos limpos e balcões higienizados, de produtos bem armazenados, estoques organizados, cozinhas industriais e até chefs estrelas. Longe de querer fazer apologia ou incitar a hábitos sanitários precários, minha preocupação, no fundo, é de outra ordem. Ninguém mais chora? Ninguém mais partilha a vida, histórias bestas ou impressões inúteis? Ninguém mais se senta despretensiosamente em um balcão de bar apenas para ver o tempo passar? Quer dizer que acabaram-se as dores de amor, as traições, as frustrações, as alegrias fúteis, o entrosamento casual e aleatório com estranhos?

Quem dera tais coisas tivessem evaporado como se evapora a água daqueles copos. Ainda que seja esse o caso, parece-me que há cada vez mais loucura e excentricidade reprimida nesse mundo, não me parecendo coincidência, portanto, encontrar-se cada vez menos botecos pelas ruas de qualquer cidade. No fundo, no fundo, por mais que tentemos esconder, o mundo ainda é o mesmo velho balcão de copos sujos de sempre. Mas de repente passamos a ter pudor e vergonha disso que nos faz tão humanos, escondemos os copos velhos e os talheres tortos debaixo de balcão. Obviamente que o mundo não deixou de ser um lugar exótico, repleto dos mais diversos tipos, mas que, na grande maioria dos casos não passam de artificiais protocolos coletivos de comportamento e conduta.

O que me consola é saber que a insanidade e a embriaguez ainda não abandonaram completamente esse mundo insensato, mas talvez precisemos de espaços onde se praticar e gastar a loucura comum e individual (e não a coletiva). Em algum momento ficamos chatos demais, exigentes e intolerantes em excesso, enfim, um moderníssimo e luminoso mundo careta, massificado até na nossa mais genuína e humana pulsão: beber.

Ora, definitivamente não há nada de novo debaixo desse sol, quanto menos da lua e das estrelas. Não quero parecer um babaca saudosista, evocando tempos melhores. Quero apenas deixar nessas breves meditações de botequim um relato de um experiência e de um hábito que espero que não sejam esquecidos. Dizem que há no mundo dois tipos de pessoas, as que sempre vêem o copo meio cheio e as que vêem o copo sempre meio vazio. Que os leitores me perdoem, mas acho que definitivamente sou parte do segundo grupo. Talvez minha percepção mude quando o garçom trouxer uma garrafa cheia. Até lá, sinto que continuarei a pensar no copo meio vazio. De todo modo, não desejo fazer um manifesto contra os moderníssimos divertimentos desses tempos, afinal, também eu me rendo ao seu charme exagerado e seu encanto escandaloso. Desejo apenas levantar a bandeira de uma causa verdadeiramente nobre que requer nosso empenho e engajamento, a reabilitação dos velhos bares e sua humanidade singela, com toda sua licença poética e existencial.

Nesses pequenos e quase extintos templos urbanos de Dionisio, reaprendemos a milenar lição dos gregos. A loucura precisa ser exercitada. E não existe loucura universal. Isso chama-se convenção, delírio ou histeria coletiva, coisas aliás que temos visto abundantemente nos dias de hoje. Talvez os velhos bares estejam fazendo mais falta do que imaginávamos. Como diria a velha máxima latina, in vino, veritas.

O que resta depois do copo vazio, da amargura afogada, da alegria bebida? Na despedida do velho amigo, levei ainda mais uma lição… a de que dessa vida não se leva nem mesmo um copo sujo, mas no fim, essa será uma das poucas marcas de nossa vida que deixaremos nesse mundo, exatamente um copo sujo.

Agora devo pedir desculpas pela empolgação. Sinto que falei demais. E nem sequer comecei a beber. Sairei para dar uma caminhada, à procura de um bar ainda aberto onde tomar um pouco da vida. Recomendo que façam o mesmo, antes que o divertimento se acabe. Se bem que tenho comigo sempre o lema de minha geração… “se nada der certo, abrirei um bar”.

Saúde a todos e bebam com moderação!