A triste história do Tucano que não sabia voar

O leitor terá que perdoar, mas não consigo escrever nada em menos de 2000 palavras. Desde que soube do limite de 500 palavras proposto pelo site, minha vida tem sido de grande angústia e minhas noites de insônia. Ok, não é para tanto, ainda não perdi meu sono, mas o fato é que desde pequeno, quando à mesa do jantar era perguntado sobre meu dia, cansava meus pais com uma descrição interminável do mais absoluto óbvio. Descobri assim que não sei ser sucinto e que jamais conseguiria escrever ou falar pouco. Na verdade, posteriormente soube que falar bobagens era a única forma de contornar minha prolixidade, muito embora também nesse departamento corresse, às vezes, o risco de me empolgar.

Ocorre que precisava provar a mim mesmo que seria capaz de escrever uma coluna nos limites de uma página, mas precisava de algo que me inspirasse com comedimento. Liguei a televisão, que aliás não ligava há dias, atrás de alguma notícia suficientemente estúpida e fútil para não me tentar ao excesso, enfim, essas superficialidades que apenas a televisão consegue nos fornecer. Foi assim que descobri, atônito, um acontecimento de enorme relevância: o acidente com a avião de Angélica e Luciano Huck. Por toda parte só se falava disso e eu me perguntava como podia ter ficada alheio a uma ocorrência dessa magnitude?

Diferentemente do que a princípio havia imaginado, mesmo um evento absolutamente imbecil desses pode dar o que falar. E como! Pensei em comentar a preocupante questão da segurança de vôo nos jatinhos particulares, afinal, este meio de transporte tende a se popularizar com rapidez, ainda mais agora que descobrimos que é o meio de transporte favorito das celebridades globais. Emoção garantida. Ou talvez mencionar a importância de se ter um plano de saúde no Albert Einstein para evitar os transtornos da saúde pública. Só não pude deixar de notar a ironia que há um semi-acidente de avião envolvendo exatamente a mocinha loira, ícone de toda uma juventude sem futuro e sem nada na cabeça, que cantava lá nos idos finais dos 1900 o melô do “vou de taxi”. De fato talvez os taxis ainda sejam mais seguros. Mas você, cidadão comum, deveria optar mesmo é pelo transporte coletivo, ainda a opção mais viável e segura a quem deve enfrentar a loucura diária do trânsito a caminho do trabalho. Ademais, quem disse que o transporte coletivo não proporciona fortes emoções?

Já estava demasiado irritado com o cinismo e a cara de pau com que nossa mídia porca nos bombardeia com toda sorte de notícias patéticas e ainda tive que assistir a uma entrevista do casal 20 relatando sua experiência de quase morte. Não bastasse serem autoridades absolutas em matéria de vivos, agora também tornaram-se peritos nas questões da morte. Em breve, creio eu, escreverão um livro e, arrisco ainda, terão até sua super aventura transformada em roteiro de cinema. Já pensaram na sessão da tarde? Um sucesso de público! (Aliás, isso ainda existe?)

Mas, depois de muito refletir a respeito desse emblemático sinistro, minha raiva aumentou quando descobri que não apenas nossa mídia nos distrai a atenção com incontáveis amenidades de segunda ordem como também oculta uma descoberta da mais alta relevância científica, a descoberta de que os tucanos não voam mais. Ora, os leitores mais atentos saberão que o apresentador, não apenas por sua constituição física, é aparentado com a imponente e importante família dos tucanos. Trata-se do primeiro caso sabido de um tucano que não sabe voar, um episódio de enorme valor para o campo da biologia. Se a mídia não o fez, faço-o eu. A ciência há de me agradecer a descoberta. Pensei até em escrever um artigo para uma dessas revistas científicas badaladas que ninguém lê (alguém aí é leitor contumaz da The Nature?).

Se bem que estranhos que casos envolvendo essa exótica e “simpática” espécie de ave brasileira têm acontecido com recorrência Brasil afora, sem que a biologia, tampouco a mídia, lhes dê a merecida repercussão, sobretudo por se tratar de uma espécie tão cara ao povo brasileiro, quase um ícone nacional para grande parte da população. Seja como for, essa não é a primeira vez que vemos tucanos negando seus instintos e brincando com modernos aparelhos de aviação humanos. A espécie parece demonstrar, ainda, grande interesse por helicópteros e alguns têm apresentado ainda estranhos hábitos alimentares, trocando o velho e bom alpiste por pó. O interesse pela aviação é tão grande que numa certa capitania brasileira, chegaram a construir uma pista de pouso para aprimorarem suas técnicas de vôo. Tucanos são mesmo criaturas brincalhonas. Adoram construir playgrounds privados. De outros lugares, chegam-nos relatos de tucanos batendo em frágeis seres humanos, hordas de tucanos invadindo as ruas, e até tucanos que ultimamente passaram a demonstrar interesses por utensílios de cozinha. Tucanos são mesmo criaturas imprevisíveis, e, ultimamente, bastante perigosas (se bem que a ornitologia sempre soube tratar-se de uma espécie altamente destrutiva). Imaginem o que não tramam e experimentam em seus ninhos.

No céu brasileiro, abundante de aves carniceiras, os urubus agora têm de dividir espaço com tucanos e suas aeronaves e, embora consigam conviver bem, estudiosos apontam para os riscos de um colapso ambiental. Mas nada de pânico! Apenas evitem voar!

Ora, se Darwin nos ensinou sobre a seleção das espécies, hoje sabemos que a seletividade não ocorre apenas na natureza. Talvez seja melhor mesmo ficarmos com a historinha do pobre mascotinho tucano que quase se esborrachou no chão. E não se preocupem com o futuro da espécie. Pesquisas mostram que eles estão se reproduzindo cada vez mais rápido. Em breve, se nada fizermos, tomarão conta dos ares, o que, arrisco-me a dizer, poderá pôr em risco a sequência de crescimento exponencial da aviação civil. Por isso, não alimentem as aves!

E vejam nem falando bobagens consigo respeitar os limites da edição… desisto…