O choro comedido de Lucille

B.B. King (1925-2015) morreu no último dia 14 de maio, deixando um legado gigantesco não só para os entusiastas do blues, mas para os fãs da música popular como um todo. De fato, sua discografia impressiona tanto pela quantidade de discos que ele gravou em estúdio e ao vivo quanto pela excelente qualidade das músicas registradas, sejam elas de sua própria autoria ou regravações de outros compositores. Como se isso já não fosse por si só um grande feito, B.B. King compôs e/ou gravou todo esse material em meio a uma agenda que contava com uma média de 200 shows por ano. Músicos que o acompanharam dizem que ele cumpria essa agenda à risca. Ela só se tornou mais espaçada depois que King completou 70 anos.

Aos leitores alheios ao trabalho dessa verdadeira lenda do blues e da guitarra elétrica, eu gostaria de recomendar a audição atenta de dois discos do B.B. King que são, a meu ver, absolutamente essenciais: Live at the Regal (1965) e Riding with the King (2000), esse último gravado em parceria com Eric Clapton. O primeiro desses discos é um álbum gravado ao vivo quando B.B. King tinha 40 anos, e que oferece uma síntese precisa do estilo pulsante e elegante de tocar desse guitarrista. A performance de King em cada uma das 10 faixas do disco é irretocável, e a banda que o acompanha no disco é igualmente impressionante, com Leo Lauchie (baixo), Duke Jethro (piano), Sonny Freeman (bateria), Bobby Forte e Johnny Board (sax). O segundo álbum é um registro em estúdio da parceria entre King e Clapton que, em vários momentos, soa como uma grande conversa musical entre mestre e discípulo. As 12 faixas que compõem o disco são uma mistura de standards do blues, como “Key to the Highway” e “Worried Life Blues”, com músicas autorais, como “Ten Long Years” (Jules Taub, B.B. King), “Three O’Clock Blues” (Lowell Fulson, B.B. King, Jules Taub) e “When My Heart Beats Like a Hammer” (B.B. King, Jules Taub). E em cada uma delas o ouvinte encontra uma verdadeira aula de guitarra, tanto de Clapton quanto de King.

A propósito, B.B. King desenvolveu um estilo de tocar guitarra e um fraseado muito próprios ao longo da sua carreira. De fato, suas frases e ideias melódicas se incorporaram de tal modo ao vocabulário da música popular que é mesmo difícil encontrar um único guitarrista que não tenha, ainda que indiretamente, sido influenciado por ele. Parte desse estilo consistia na adoção de um princípio simples mas muito eficaz quando o assunto é música: menos é mais. Era essa economia que caracterizava o choro comedido de sua inseparável Lucille e permitia a ele fazer declarações realmente intensas com cada uma das notas que tocava. E isso só os realmente talentosos sabem fazer. Portanto, B.B King não tocava poucas notas, como às vezes costuma-se dizer, principalmente entre os aspirantes a guitar hero. Ele só tocava as boas.