A idade dos meninos barbados

Scentsicles Scented Ornaments

João abandonou casa e família e, com apenas 19 anos tomou a decisão de viver na rua. Rodou o Brasil tomando caronas e sobrevivendo de bicos. Hoje, aos 44, João cedeu à rotina. Tem uma vida estável. Durante o dia pede dinheiro em uma esquina da Augusta e pela noite, recolhe-se ao viaduto da Av. Rebouças onde fez seu dormitório. Pelas circunstâncias de sua vida, João não apara a barba há quase 1 ano, os cabelos, então, não são cortados há quase 2. Tudo o que possui é um cachorro vira-lata que lhe serve de melhor amigo e um cobertor xadrez de flanela, bastante puído, que carrega consigo desde que saiu de casa. Danuza, mora em uma humilde cobertura nos Jardins. Depois de passar por 3 faculdades, viajou o mundo atrás de inspiração quando então decidiu estudar moda. Quem poderia imaginar, no entanto, que do encontro dessas duas figuras tão antagônicas pudesse sair algo que mudaria a vida e aparência de toda uma geração.

Foi em uma tarde de outono. Fazia frio na capital. João estava enrolado em sua coberta, lendo um jornal velho, cachorro deitado aos pés e pote posto para coletar as poucas moedas que lhe ofereciam a escassa generosidade da população em meio à correria e à indiferença rotineira da Paulicéia, sempre desvairada. Danuza, saindo de um restaurante indiano, atravessava a rua bastante distraída. Há semanas, atormentada pelo tempo e pela pressão do gerente de seu atelier, buscava alguma ideia para sua coleção outono-inverno que exibiria em sua luxuosa loja na Oscar Freire. A inspiração, tão esperada, veio no momento em que pôs os olhos em João.

Em poucos meses, o xadrez estava na moda, não apenas o xadrez, mas a barba e o cabelo também. De repente, por toda parte, as pessoas decretaram o fim a puberdade. Claro que para alguns ainda faltavam os sisos, mas não se pode ganhar todo o juízo de uma vez só. Os pêlos (aliás, explico que usarei a ortografia antiga porque não aderi à Reforma Ortográfica, de que falarei noutra ocasião) na cara já trariam alguma maturidade, muito embora, em meio a tanta insensatez não se pode esperar tanto dos pobres folículos. O primeiro passo é cultivar os pêlos e aceitar a idade, a sabedoria, se houver, crescerá em seu próprio ritmo. Dizem que essa é bem difícil de cultivar.

Numa entrevista a uma revista especializada, dessas recheadas de fotos e quase nenhum texto, que folheamos enquanto suportamos a tortura da espera em uma sala de dentista, Danuza disse que buscou a inspiração no estilo dos lenhadores, que, aliás, sequer sabiam que tinham estilo até essa data. Barbas de todos os tamanhos, penteados dos mais diversos tipos, os pêlos estavam mesmo em alta.

Em uma terra de tantos barbudos notáveis e bigodes de respeito, os figurões fizeram da barba um símbolo poderoso e bastante recorrente em nossa história. Que o diga Pedro II, o imperador que nasceu barbado. A prematuridade dos pêlos trouxe uma maturidade antecipada e a ingrata missão de governar esse país. E dizem que o tal Pedro II nunca quebrou sequer um graveto. Pelo visto nem todas as barbas se originam do corte da madeira.

E já que falamos nisso, o grande problema tem sido decidir o que fazer com tamanha mão de obra ociosa. As habilidades recém adquiridas pelo culto à barba e à rusticidade não encontram mais utilidade em um mundo tão civilizado. Arquitetos planejam agora casas com lareiras e quintais para armazenar e rachar a lenha. O clima é um empecilho, é claro, mas nesse mundo, estilo é tudo, ou quase. Algumas prefeituras estudam criar bosques públicos onde as legiões de lenhadores frustrados possam extravasar seus ímpetos primitivos. Enquanto isso, na porção setentrional da nação, homens, provavelmente com menos testosterona e maior aporte tecnológico, ignoram a tradição do nobre ofício enquanto colocam abaixo florestas inteiras com ajuda de tratores e correntes.

Mas nem só de barbas se faz a moda. Antônio, funcionário público exemplar e distinto, mantém-se firme em sua causa, lutando para dar alguma dignidade e prestígio ao seu respeitável bigode, que cuidadosamente cultiva há mais de 2 décadas. Jorge prefere as costeletas, e Pedro, jovem atormentado por uma calvície prematura, anda de clínica em clínica sonhando com algum tratamento milagroso que lhe dê o direito de frequentar os salões de beleza especializados. Porém, compensa a desvantagem estética aprendendo rudimentos de corte e costura e fazendo, ele mesmo, suas próprias roupas descoladas.

Danuza almoça todas as terças naquele mesmo restaurante. Passa por João, que jamais saberá que foi ele a inspiração da estação (com o perdão da cacofonia). Danuza nunca lhe deu moeda alguma, afinal, para ela, João não passa de um ocioso. Como trabalhadora e contribuinte, pensa que dar esmola seria incentivar a vadiagem e a mendicância. Danuza acredita que não se deve dar o peixe, mas sim, ensinar a pescar. Inclusive, inspirada em sua alta filosofia, já planeja, para o próximo ano, uma nova tendência: a moda pescador. Será um grande sucesso!

João continua pedindo esmola na Augusta e dormindo debaixo do mesmo viaduto, sem se importar com os vai-e-vens da moda, ainda que seja uma mais compreensiva com seu estilo desleixado. Tampouco sabe que se tornou um ícone do estilo e um referencial estético quase universal. Irritado em ser confundido com tanta gente séria e importante, tomou uma decisão drástica. Depois de 20 anos, decidiu mudar de vida, tirar a barba e raspar o cabelo. Até já começou a juntar dinheiro para ir a um velho barbeiro conhecido, que atende numa rua escura e esquecida nos arredores da República. João pode até estar na crista da onda, mas continua tão faminto e quebrado como sempre estivera. Nada mudou em sua vida, e para piorar, depois de anos de uso, seu velho cobertor xadrez está sujo e rasgado. João já planeja comprar um novo, até mesmo porque, na verdade, João sempre odiou xadrez. No fundo, no fundo, João sempre preferiu as florzinhas…