A Vingança de V

V de Vingança (V for Vendetta) se passa num Reino Unido fictício, governado pelo partido fascista Norsefire, após um holocausto nuclear. O lema do partido – “força através da pureza, pureza através da fé” – sintetiza as premissas ideológicas que sustentam suas práticas repressivas, e é ironicamente apresentado ao leitor logo nas primeiras cenas, quando uma das personagens escapa de ser estuprada e morta pela polícia política do estado. Essa é, na verdade, apenas um dos momentos perturbadores dessa narrativa, que dá um duro golpe nas práticas políticas totalitárias ao alegorizar o funcionamento interno dos aparatos ideológicos desse estado opressor e repressor.

De fato, o fascismo e a repressão do Norsefire não conhecem limites, o que produz uma atmosfera profundamente distópica e sufocante em V de Vingança. Para neutralizar seus opositores, esse governo conservador usa todos os meios possíveis de controle e de eliminação das vozes dissonantes. O exemplo mais extremo dessa prática é Lankerhill, um “campo de readaptação” para onde são levados os prisioneiros políticos e as minorias que o governo pretende extirpar, principalmente os imigrantes e os homossexuais. Além disso, para sua “própria proteção”, a população é amplamente monitorada e tutelada pela “voz do destino”, absolutamente comprometida com a propaganda política e os interesses ultraconservadores do Norsefire. Essa “voz” mascara eficazmente o autoritarismo do partido, alimentando nos cidadãos um estado de falsa consciência que inibe os riscos de um levante por parte daqueles que são comandados com mão de ferro.

Nesse contexto surge V, que fugiu de Lankerhill para combater a estrutura de poder autoritário que tentou “reabilitá-lo” e se vingar dos que o prenderam. Na sua vingança teatralizada e que constantemente remete o leitor às formas de cultura totalmente erradicas pelos fascistas do Norsefire, V busca fazer também com que as pessoas resistam à doutrinação ideológica da “voz do destino”. Fica claro nesse seu esforço que é só a partir dessa resistência que cada indivíduo poderá assumir o controle das suas próprias vidas e decisões, objetivo último da vingança de V.

Disso decorre que um dos temas centrais de V de Vingança é justamente a tensão entre aparência e realidade. Isso porque a narrativa de Moore tematiza os diferentes modos como verdades são engenhosamente construídas para atender aos fins políticos e ideológicos mais escusos. O próprio Moore oferece essa importante chave de leitura, ao escrever na introdução da HQ que Margaret Thatcher “fala confiante de uma liderança ininterrupta dos Conservadores no próximo século. (…) Os soldados da tropa de choque usam visores negros, bem como seus cavalos; e suas unidades móveis têm câmeras de vídeo rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques.” Nesse sentido, esse romance gráfico ainda tem muito a nos ensinar. Diante da atual ascensão indiscriminada de discursos fascistas e neoconservadores, frequentemente patrocinados por homens públicos de idoneidade duvidosa, V de Vingança constitui uma leitura absolutamente essencial.