Mutilação feminina, como vista por uma mulher

Ayaan Hirsi Ali - foto de Moshe Reuveni

O último ato do ex-presidente nigeriano Jonathan Goodluck foi, no mínimo, corajoso: criminalizar a mutilação genital feminina (FGM, na sigla em inglês). Prática rotineira no país e em outras 26 nações africanas, a circuncisão feminina é comumente feita em crianças até cinco anos e é considerada violação dos direitos humanos por órgãos tais quais a Organização Mundial da Saúde.

Em algumas regiões do mundo, a FGM aparece associada ao islamismo. No entanto, ela não faz parte dos fundamentos da religião. Sua motivação está ligada aos valores tradicionais de controle da sexualidade feminina e ideais de pureza. Nos locais em que é comum, a mulher não submetida ao procedimento é costumeiramente vista como suja e inapropriada para o casamento.

Ouvir falar abstratamente da FGM já é impactante, mas ler sobre um caso real e suas repercussões do ponto de vista de quem passou pelo processo é quase perturbador. Foi em nome da pureza que Ayaan Hirsi Ali, somaliana, foi submetida à mutilação genital aos cinco anos. Muito embora seu pai fosse contrário à prática, a avó materna viabilizou a mutilação de Ayaan e sua irmã, bem como a circuncisão de seu irmão, em nome dos valores tradicionais.

Além das experiências partilhadas entre ela e a irmã acerca da ablação, Ayaan conheceu diversas outras mulheres que passaram pelo procedimento. Cada uma delas lidou com a questão de maneira particular: de nojo do próprio corpo, passando pela naturalidade, até o extremo de não aceitar conviver socialmente com mulheres “impuras”. Todas, no entanto, tiveram em comum o fato de que a mutilação marcou profundamente a saúde, tanto física quanto mental.

A trajetória de Ayaan, atualmente ativista política residente nos Estados Unidos, está documentada em seu livro Infiel, editado aqui pela Companhia das Letras. O trauma do procedimento, a fé islâmica radical, o medo de um casamento arranjado e a inevitável fuga de seu país são narrados em detalhes. De adepta fervorosa do islamismo, Ayaan passou por um processo de secularização, sendo que hoje é manifestamente ateia.

O choque cultural entre os valores ocidentais “liberais” e a realidade de tais meninas e mulheres, como a autora, é inevitável. Entretanto, o mais interessante do livro não está na descoberta dessa cultura diversa, mesmo que seja de fato bastante envolvente e informativo. A dimensão individual, de acompanhar Ayaan em sua “jornada da heroína”, faz o livro valer a pena – ninguém faz um desenvolvimento de personagem tão bem quanto a vida real.

Saiba mais no artigo da seção Mundo: “Precisamos falar sobre mutilação feminina“.