E esse ajuste, vai ajustar?

Edilson Rodrigues/Agência Senado.

Nos últimos anos, o debate econômico se popularizou massivamente. Evidentemente isso é natural já que a economia do país diz respeito a condição de vida da população, logo esta tem mais que o direito de debater sobre o que é melhor pro seu próprio bolso. Dessa forma, é fundamental conversar sobre como estão sendo os ajustes de Joaquim Levy, já que está tocando no bolso de todo mundo. Bem, talvez não todo mundo.

Dos anos 2000 até 2008, o crescimento da economia chinesa engendrou um ciclo de alta do preço das commodities internacionalmente, pois quando se fala de China importando algo, não são quantidades modestas. Esse ciclo beneficiou o Brasil, que obteve taxas robustas de crescimento devido à pauta exportadora centralizada em produtos primários. No entanto, não há mal nem bem que dure para sempre, muito menos na economia mundial. Já nos anos pós-crise, mesmo com um certo ganho de fôlego novamente, a dinâmica se alterou, haja vista que China e Índia começaram a reduzir seus ritmos de crescimento. Era o sinal do fim do reboque brasileiro puxado pelas commodities. A apreciação cambial ao final desse ciclo aprofundou o problema (já existente) de competitividade das exportações tanto primárias quanto secundárias (em especial na indústria de transformação). Esse cenário internacional de retração gerou no Brasil um déficit de US$ 90 bilhões nas transações correntes, pressionando o Estado para expansão dos gastos públicos, de modo a tentar elevar a competitividade. Essa expansão fez com que o superávit primário (diferença entre a arrecadação e os gastos do governo) caísse de 1.9% do PIB (2013) para -0.6% (2014). Ninguém é contra o governo equilibrar suas contas, contudo, para quem o ajuste fiscal está pegando no bolso? As medidas adicionais resolverão o problema da falta de competitividade?

Até agora o ajuste fiscal aumentou os impostos de consumo (PIS/Cofins); aumentou o IOF para pessoa física, mas não para as empresas; aumentou as exigências para solicitar o FIES; fez recusarem o reajuste do imposto de renda, o qual propunha que quem recebe até R$ 1903.98 não precisaria prestar contas à Receita; e por fim, diversas medidas provisórias com maiores obstáculos aos direitos trabalhistas, a ressaltar a mudança no seguro-desemprego (atingindo mais os trabalhos de menor salário, devido sua rotatividade).

Não é difícil de perceber quem está tendo seu bolso mais ajustado nessa história. Enquanto se reduz a renda dos trabalhadores brasileiros, as empresas multinacionais continuam suas trajetórias rentistas estabelecidas na alta dos juros, a qual o ajuste sequer tangenciou. Os economistas liberais justificam que é ela quem puxa os capitais externos, mas em tempos de vulnerabilidade externa e desindustrialização como a nossa, nos interessa um capital externo volátil que vem quando tem altos juros e pode ir embora no dia seguinte se não tiver? O ajuste proposto está longe de aumentar a competitividade das empresas nacionais ao beneficiar um capital estrangeiro atraído por juros altos e baixos custos de mão de obra. Também está longe de representar o melhor para o bolso do brasileiro.