A realidade invisível de Darfur e o silêncio conivente da sociedade internacional

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Darfur é uma região localizada no oeste do Sudão, na África, e que sozinha possui quase a mesma extensão territorial da Espanha. A região é palco de históricas disputas por território entre a população árabe, majoritariamente nômade, e os grupos étnicos de fazendeiros ali habitantes. A instabilidade política no Sudão encontra raízes já na década de 1980, culminando no golpe de Estado orquestrado pelo militar Omar Hassan Al-Bashir e em uma tentativa governamental de “islamizar” o Sudão.

No entanto, foi em 2003 que teve início o atual conflito étnico-cultural que assola o país, após grupos rebeldes atacarem o governo sudanês em protesto à marginalização política da região de Darfur e contra os consecutivos ataques que a população local vinha sofrendo. Em retaliação, o governo sudanês iniciou uma campanha de perseguição aos povos de Darfur e passou a oferecer suporte militar para algumas milícias árabes, principalmente os “Janjaweed”.

A perseguição incluiu assassinatos em massa, sequestros, bombardeios e incêndios, resultando em cerca de 300 mil mortos apenas nos cinco primeiros anos de conflito. Além disso, a utilização do estupro enquanto arma de guerra tornou a realidade em Darfur ainda mais visceral para as mulheres sudanesas, adicionando ao conflito a variável de guerra psicológica, com o objetivo final de desmoralizar o inimigo.

O conflito também teve forte impacto nas crianças que o vivenciaram, como mostra o trabalho da ONG britânica “Waging Peace”. Enquanto colhiam depoimentos de adultos que estavam abrigados em campos de refúgio no Chade, país fronteiriço à região de Darfur, funcionários dessa ONG decidiram distribuir folhas de papel e lápis de cor para as crianças, e pediram que elas desenhassem os seus sonhos futuros e as suas memórias mais fortes.

A grande maioria dos desenhos abarcou, com detalhes, diversos ataques das Forças Armadas sudanesas e das milícias Janjaweed às suas antigas vilas. Homens mortos, mulheres sendo espancadas e estupradas, aviões bombardeando casas. Tudo isso ilustrado em desenhos de crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos, como prova do quão latente e perverso o conflito foi e, infelizmente, continua sendo.

Segundo dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, o conflito no Sudão já resultou em mais de 3 milhões de deslocados internos, cerca de 700 mil refugiados e 1,2 milhão de crianças com menos de 5 anos subnutridas. No entanto, ainda que se enquadre na classificação de genocídio prevista na Convenção sobre a Prevenção e a Punição do Crime de Genocídio, e apesar da atuação da Missão das Nações Unidas e da União Africana em Darfur desde 2007, o debate em nível internacional acerca do conflito segue incipiente e, por consequência, conivente com a contínua escalada da violência.

É imperativo que as causas e consequências do conflito sejam amplamente debatidos pela mídia internacional e organismos multilaterais. É imperativo que países que sigam negociando armamentos com o governo genocida sudanês sofram restrições e constrangimentos. Em suma, é imperativo que os desenhos das crianças de Darfur – e tudo o que eles representam – saiam da invisibilidade seletiva daqueles que detêm o poder de nomear o que é prioridade ou não na agenda internacional.

OBS: Para aqueles que se interessam pela temática, sugiro o filme “Darfur: Deserto de sangue” (Tem no YouTube!).