Conservador brasileiro, o “grande experimentador de si mesmo, o insatisfeito, insaciado.”

Foto de Mariana Costa - UnB Agência

Em 1887 Nietzsche escreveu “necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão – para isso é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quias nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram […] Tomava-se o valor desses ‘valores’ como dado, como efetivo, como além de qualquer questionamento; até hoje não houve dúvida ou hesitação em atribuir ao ‘bom’ valor mais elevado que ao ‘mau’, mais elevado no sentido da promoção, utilidade, influência fecunda para o homem (não esquecendo o futuro do homem).”

Lembremo-nos de Nietzsche e a crítica aos valores. E que este escrito sirva a todos, em especial meus colegas e amigos historiadores (e nisso incluo a mim) que em sua maioria sempre foram os primeiros a se omitirem diante dos absurdos dos discursos infundados daqueles que pensam estar apreendendo o passado (como se esse fosse um rua límpida e clara, sem desvios) através de sua sensibilidade imediata, seu primeiro ato egonístico (uma consciência que atrai as coisas-para-si, longe da coisa-em-si), inviabilizando o próprio tempo histórico e suas contradições e problematicas latentes. Essas apreensões são terríveis e perniciosas, resultam em expressões como os pedidos de retornos dos regimes militares, descriminações contra religiões afros e indígenas, todas se apoiando nesse empreendimento do ser vacilante que pensa tocar o mundo com sua egonística que não deixa de estar escondida no “eu” (muitas vezes um eu fundado no empirismo, como se Kant nunca tivesse existido e desestabilizado essa filosofia dos “práticos”) ao esconder-se no “eu” o para-si não ocorre e não ocorrendo é o mesmo que jurar um mundo interno como um munto total e externo. É o ímpeto de uma falsa-catarse, um invólucro do vazio vindo à tona. Estímulos assim guiaram as cruzes em chamas da Ku Klux Klan contra os os negros no sul dos EUA, guiaram as bombas em Halabja contra os curdos e também em nossa terra, geram todos os dias “Chacinas da Candelaria”.

Esse tipo de gente vem ocupando espaços com suas falácias sem fundamentos críticos e analítico (não que isso resolva a vida, mas ao menos estabelece-se um parâmetro comum ao dialogo) e os historiadores que vivem por detrás de pilhas e mais pilhas de informações documentais, alimentando-se na penumbra, ralando a vida, vendo-a escorrer na solidão, e consequentemente, apenas expondo-se ao debate com seus pares, não devem se prestar apenas a isso.

Não que sejamos nós os guardiões do tempo, únicos detentores do discurso historiador mas somos nós que enfrentamos o desgastante trabalho arquivista, somos nós que gastamos horas espremendo-nos com linguagens estrangeiras e de homens que há séculos não mais vivem, somos nós que estamos presos entre o presente e o passado, que com o passar dos anos, nos vemos mais e mais distantes de nós e de nossos contemporâneos. Deixemos de omissão, que as pesquisas não mais sirvam para masturbação intelectual, que transcendamos essa dupla egonistica, do historiador fechado em si e do imbecil que ocupa seu lugar no meio social.

[Texto do leitor Luís Alfredo Galeni]