[Poesia] São

Foto de Diet Munhoz

Meu nome é Paulo: me sinto mal.
Me sinto mal por tudo, ó Deus.
Tanta agonia, tanta solução
Tanto soluço e pouca ação

Trânsito é maré, maré brava no dia e de noite filé
Mulher brava de Avaré, me xingou no telefone
Sinalização de romance, Amor sem sinal
Tem escada, não tem lance e nem final.

Eu estava casado, já não estou mais!
Minha carne divorciou da alma
Doeu um pouco, já não dói mais
Morri aqui, morri sem calma
“Calma, ele tá passando mal!”

Que vida eu tive! Tive eu várias vidas
Vi crianças na beira do rio
Vi adultos à margem no Rio
Vi a morte, ela me sorriu
“Qual seu nome?”

Eu estava em São Paulo
São Paulo estava em mim
Tossi para queimar a azia
O catarro paulista é assim

“Força, vai que ele ainda ta vivo”
A dor no peito passou, eu rezei
Olhei ao redor e passou meu metro
Segui pro trabalho, sei que atrasei
Mas só trabalho na dor, será que sonhei?

Meu corpo ficou
“Senhor, ele tá perdendo o ar”
Tanta gente olhando pra mim
Então percebi os sinais
Paulista não me admira assim
Só vê as coisas perto no fim

Estava eu morto
Morto, mortinho, mortão!
Largado no chão
No chão claro da estação.

Tamanduateí lotado
Corpo aberto, corpo cerrado
Duro, pedra, Pedro meu olhou
Alguém perguntou:
“Ninguém ligou pra ambulância?”

Patrícia chorou, mineira que era
Nunca tinha visto morte de cidade
Mas logo seguiu seu rumo pra Itaquera

Eu subi, subi e fui pro céu
Narcose de nitrogênio me atinge
Me perdi e voltei pro hell

Relógio no pulso
“Ele não tem pulso”
Coração apertado
“Se afastem todos!”
Coração parado

Voz de mulher responde:
Próxima Estação: Sacomã
“Esse ai vai pra onde?”
– Vai pro saco, irmã…
Depois do Tamanduateí
Tudo terminava ali

Já cheguei morto nessa terra
Mas São Paulo só nega
Sem amor se esfrega
E me tira daqui.