Motins e revoluções internas, por John Boyne

Bounty - de Yasmina Portret

A tradução brasileira do título de O garoto no convés, de John Boyne, assim como a identidade visual da capa, tem claramente o propósito de lembrar o grande sucesso do autor, O menino do pijama listrado. Não se engane por isso.

Em comum, os dois livros têm o fato de serem romances históricos, como muitas das obras do autor. Enquanto o segundo trata da Alemanha nazista, O garoto no convés se passa no final do século XVIII, na Inglaterra e a bordo de um navio da marinha real. O público-alvo do best-seller envolve leitores mais jovens, ao contrário do segundo, considerado uma novela adulta. Apesar de muitas vezes tratado como literatura adolescente, O garoto no convés possui cenas de violência que podem ser gráficas demais para leitores mais sensíveis, inclusive se tornando alvo de críticas devido a elas. Além disso, a escrita das obras é diametralmente diferente – assim, gostar de um não é garantia absoluta de gostar também do outro.

Na história inglesa, o motim que ocorreu no HMS Bounty é muito famoso. Já foi tratado em vários filmes, livros e artigos, e é a vez de Boyne contá-la em O garoto no convés. O protagonista John Jacob Turnstile, um garoto sem família de cartorze anos que já foi pego inúmeras vezes pela polícia devido aos seus pequenos furtos. Quando seria mandado para a prisão, surge repentinamente a necessidade imediata de uma espécie de secretário pessoal para o capitão do Bounty, e é assim que ele vai parar a bordo do navio que seria palco de um dos maiores motins da história da marinha inglesa.

A bordo do navio, ele descobre a dimensão do mundo e as possibilidades dele, ao mesmo tempo em que desenvolve uma admiração profunda pelo capitão a quem serve. Anteriormente omisso, as situações da viagem, da chegada ao destino e do motim o obrigam a tomar uma posição clara, modificando sua postura diante da própria vida. Além das descrições históricas que permeiam a narrativa, o livro vale pela jornada do herói desenvolvida a partir dessas mudanças.

Se você não sabe o que é jornada do herói, aqui vai uma explicação rápida: trata-se da descrição cíclica de Joseph Campbell acerca da estrutura narrativa dos mitos, que envolve doze etapas, entre elas o chamado para aventura, a recusa, o encontro com mentor, os testes, a recompensa, o caminho de volta e o renascimento. É possível encontrar elementos da jornada do herói nas mais variadas histórias, inclusive nas contemporâneas.

De volta ao assunto, todas as doze fases da jornada do herói são identificáveis em O garoto no convés. Vale a pena pesquisar o assunto antes de ler o livro, uma vez que o autor trabalha o amadurecimento e as mudanças do personagem em detalhes, inclusive na linguagem da obra em si. Por ser tão entranhada no psicológico de John Jacob, a narrativa muitas vezes torna-se lenta. Para essas ocasiões, é necessário paciência: os trechos bem-humorados, a descrição histórica e o desenvolvimento caprichado dos personagens fazem valer a pena.

P.S.: Feliz dia dos namorados, Gui ❤