Se me amas, prova! (ou paga!)

Moro  em um apartamento no centro da cidade há cinco anos e nunca antes vi um dia dos namorados tão desanimado. As lojas, que num último lampejo de esperança (ou ambição) decidiram permanecer abertas até mais tarde, estavam às moscas. Dentro dos estabelecimentos, atendentes, debruçadxs sobre os balcões, olhavam com olhar desolado para o alto no aguardo de algum apaixonadx à procura do presente perfeito. Pobres almas, passarão o final de semana sem comissão. Nem mesmo os tímidos anúncios de promoção pareciam convidativos aos poucos transeuntes. Lojas de roupas, óticas, joalherias, perfumarias… até mesmo as floriculturas, de delicadeza e beleza tão singela, mas já tão fora de moda, todas elas entregues à própria sorte. Apenas as farmácias permanecem cheias, afinal, é preciso prolongar a vida. E também as academias, é claro, pois é preciso manter a forma e sofrer pela beleza. Nada de amor preguiçoso e sedentário. O afeto exige fôlego e muito preparo (nem que seja apenas físico).

Mas onde estarão os amantes?

O amor sempre custou caro, mas em tempos de crise, amar é um ato de coragem, de bolso e de fundos. O desânimo, a escassez de recurso, a inflação em alta parecem não favorecer as paixões. “Se me amas, prova”… quantas vezes essa frase não foi ouvida na história dos milhões de casais que passaram por esse mundo? O desafio feito há séculos por amantes encontrou ao longo dos tempos inúmeras formas de solução. De serenatas a duelos, de poemas a jóias, de quadros a flores, o amor, ao que parece, só vale quando é provado. Ninguém tem a certeza de amar. Recordo-me do velho Drummond, “o próprio amor se desconhece e maltrata. O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados; não está certo de ser amor […]”.

A modernidade, como sempre, tornou essas questões incômodas de séculos muito mais práticas e simplificadas. A prova de amor agora tem data fixa, calendário de compras e protocolo de conduta. Restaurantes caros, jantares finos, barzinhos da moda, e, claro, um presente à altura. Caso seu limite bancário permita, recomenda-se uma jóia, um relógio… ou então, a mais recente prova (e ferramenta) do amor:  um celular da última geração. Não se ama mais sem eles! O dinheiro tornou as coisas mais fáceis, afinal nada dissolve as dúvidas e as incertezas com tanta rapidez. Hoje uma prova de amor pode até se parcelar no cartão. Mas aí vem uma tal crise econômica e com ela não apenas a economia mas também os corações de repente desaceleram… São mesmo tempos difíceis para se amar. Pelo menos é o que dizem os comerciantes. Economistas advertem para crises conjugais e términos de relacionamentos. Viraram quase gurus do amor. É possível amar em tempos de crise? E como farão os pobres casais para provar a sinceridade de seu sentimento?

Gostaria de crer que os casais que não estavam nas ruas nem nos shoppings gastando seu suado dinheirinho estivessem em casa reaprendendo a amar o amor sem custo e sem preço. Talvez a crise nos obrigue a encontrar formas mais criativas e talvez mais simples de dizer o que sentimos. Mas se não há presente que simule ou dispense a demonstração sincera, será preciso um pouco mais que um embrulho chamativo e brilhante. E não vale furtar flores de um jardim privado ou de um parque público, como se fazia no tempo de nossos avós. Vivemos em um país onde o furto é crime, a posse, um direito e a propriedade (quase como o sexo), um tabu…

E já que falei em nossos avós, soube que era hábito ao tempo deles ofertar uma foto de lembrança, uma carta, um lenço perfumado ou um livro com uma flor dentro. Ficam aí algumas sugestões de economia, ainda por cima com um toque vintage. Ou então, espelhem-se nos jovens amantes, que embora nada saibam do mundo, com seu amor barato e iniciante, sempre aprendem o afeto em sua forma mais gratuita. Sentar-se no banco de praça, tomar um sorvete, comer pipoca… opa, acho que continuo pensando nos meus avós. Os sentimentos modernos não toleram a simploriedade e a cafonice do romantismo de outrora…

É, pelo visto a criatividade dos amantes será mesmo posta à prova. Amar hoje é quase um sentimento tributável. Contudo, continuo crendo que se há afeto, sempre há como se demonstrar, e talvez sequer seja preciso a prova. Sem constrangimento. Sem querer dar coragem à sovinice, acho que não dar um presente ainda não é sinal definitivo da falta de amor. Nada de crises. Já nos basta a econômica.

Penso nas contas dos bares, nos restaurantes desertos, nos cinemas vazios e nos amantes escondidos. A coisa não está para festa… Infelizmente pressinto que talvez alguns amores não resistam à tamanha provação. Alguns casais serão desfeitos. Mas se você resistir e passar pelo teste, se conseguir encontrar o presente perfeito sem gastar seu saldo bancário e seu amor próprio, se conseguir dizer tudo aquilo que deseja sem gastar um centavo, então, além de sobrevivente, saiba que encontrou um amor pra vida toda! Se bem que uma vida toda, ainda que passe rápido, talvez seja tempo demais. Nada de jurar pela eternidade, é piegas. Na dúvida, há sempre aquele silêncio que se partilha, que ainda é a mais genuína demonstração de intimidade. Um tal Bauman disse que em nossos tempos o amor é líquido, volúvel. Infelizmente. Mas em tempos de crise hídrica e escassez de água, sabemos bem que o líquido vale ouro. Quem sabe seja essa a prova de amor de nossa época. Vê só? Talvez haja ao menos um lado bom nisso tudo. Já que não podemos banhar o leito em ouro, já que o amor é líquido, então deixai encharcar os lençóis. É o que resta. O amor evaporará na manhã seguinte.

São mesmo tempos difíceis para o amor… ama-se pouco e paga-se muito.

Mas não se desiludam, jovens amantes. O amor talvez resista. Parece que ele sempre viveu de crises. E de crises estamos bem servidos. Tempos melhores, quem sabe, virão. E se não vierem, aguarda-nos então o tão esperado fim do mundo, que sempre foi um delírio apaixonado e fatalista, trágico, mas muito favorável aos apaixonados. O recurso dramático não custa mais que um pouco de imaginação. Esqueça a conta do cartão, o preço exorbitante de um bom vinho, a alta do chocolate… hoje não importa, hoje é o dia de provar que se ama. E o que não se prova hoje, se questiona amanhã. A dúvida sempre espreita o coração. Se o clima é de “fim de século”, de crise, melhor fazer como os amantes loucos, possuídos de paixão, amando-se loucamente na cama até que o mundo se acabe ou se exploda. Não há melhor prova… E se o mundo não acabar, sempre haverá um jeito de renegociar a dívida, no fim, estamos sempre endividados com o mundo, e por mais que extrapolemos os limites, sempre restará algum saldo. O amor é investimento, e investir em tempos de crise é mesmo coisa para loucos. Amar é arriscado. Se não dói no peito, doerá no bolso, afinal, como diz o velho e sábio adágio popular… “o amor é uma dor”. [Esse final ficou parecendo uma letra de pagode]

Feliz dia dos Namorados!