Mito e bola: o futebol na nação dos pernas (e da cara)-de-pau

Giorgio Raffaelli

Para que o leitor não ache que sou afeito apenas a falar bobagens, comentar inutilidades e ironizar a vida comum, essa semana decidi falar de coisas mais sérias, decidi falar de futebol. Isso mesmo, de futebol, afinal, muito embora não o seja para mim, sempre ouvi falar que futebol é coisa séria, e muito! Explico-me. Os que me conhecem (os que não me conhecem mais ainda) certamente irão se perguntar: ora, mas logo ele falando de futebol? Pois é, vejam a que ponto chegamos. Talvez seja sinal dos tempos. Mas, acalmem-se, não vou comentar aqui o resultado de partidas, tabelas de campeonatos, a evolução do Palmeiras na Libertadores ou do São Paulo no Brasileirão. Aliás, quem é mesmo o técnico da seleção? A verdade, e deixo claro de início, é que nunca escrevi sobre futebol na minha vida… mas, seja lá por que forças sobrenaturais, de repente senti que devia (tentar).

Primeiramente, devo admitir publicamente que odeio o esporte. Nada pessoal, apenas prefiro gastar minhas tributáveis calorias em atividades menos arriscadas. Quando pequeno, meu pior sofrimento na escola eram as aulas de Educação Física. Aí a coisa virou trauma e, como vocês sabem, trauma não se cura, se convive. Por sorte o meu é evitável. Sou um sedentário convicto e declarado, sem nenhuma vergonha de sê-lo. E a razão de vir aqui falar a respeito de algo tão improvável é sim muito séria. Os recentes escândalos envolvendo a FIFA, CBF e tantas outras organizações ligadas ao esporte, fizeram provar que o futebol é capaz de afetar até mesmo a vida mesmo do mais completo sedentário. Desse modo, o fato de não ser afeito ao esporte em nada compromete minha análise. Porém, se ainda assim duvidarem de minha aptidão, saibam vocês que já fiz um gol na minha vida. Um gol apenas, é bem verdade, e ainda contra, mas, ainda assim um gol. Seja como for, isso apenas faz de mim parte de um seletíssimo grupo, o dos pernas de pau, os quais, apesar da pouca habilidade futebolística, nem por isso estão impedidos de dar lá seus pitacos.

Penso que aqui ninguém discordará de mim quando afirmo que o futebol tem funcionado, já há algum tempo, como um dos mais poderosos mitos nacionais, da mesma forma que o carnaval e tantos outros. Não estou proclamando nenhuma novidade e posso dizer, inclusive, que tenho a sociologia e a história ao meu lado. Ocorre que hoje, muito mais que um mito ou elemento de suposta unificação o futebol interfere em interesses nacionais, com contornos políticos cujos impactos econômicos afetam a todos. O futebol, tanto quanto a obesidade, tornou-se, arrisco dizer, um problema de saúde pública.

A questão é que nossos mitos muitas vezes têm um preço alto e escondem um lado perverso e sujo. O carnaval, por exemplo, é alimentado pelo jogo do bicho há décadas e tal informação é tão conhecida que não causa mais espanto em ninguém, tampouco problemas ou dores de cabeça aos seus responsáveis. Para financiar nossos mitos, toleramos as maiores irregularidades, habituamo-nos a aceitar e conviver com o absurdo e o ilógico.

Sim, porque talvez a comoção compense o crime, e o crime, como todos sabem, às vezes compensa. De sobra ainda ganhamos o título de país do futebol e do carnaval, que ostentamos com orgulho. Na falta de melhores sentimentos que nos definam, resolvemos na base de fórmulas e mitos generalizantes, em tom de festa e celebração, o problema  histórico de definirmos o sentido de nossa nação e de nosso povo. O que nos define? Mitos têm lá sua importância e validade. Contudo, talvez seja a hora de reconhecermos que os nossos estão viciados e corrompidos.

Um episódio dessa monta coloca em xeque um de nossos mais valiosos mitos, o futebol. A importância do esporte em nossa história recente é inegável, ligado mesmo a períodos obscuros de nosso passado. A copa de 1970, em plenos anos de chumbo, talvez tenha dado a prova definitiva do seu potencial. Não se trata de criminalizar a bola, até mesmo porque a ideia já nasceria morta… a ligação de clubes e torcidas a atividades irregulares, embora de conhecimento geral, sempre foi ignorada ou disfarçada. Disfarçada porque está longe de ser um fenômeno isolado, envolvendo ainda, e principalmente, instituições, governos e, acima de tudo, a mídia. Aliás, recordo aqui uma velha máxima do falecido Millôr Fernandes que dizia que o “o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”.

Agora, eis que toda a sujeira supostamente ignorada e varrida para debaixo de tapetes foi finalmente descoberta? Quem não a viu antes ou devia ser míope ou devia ser porco. E quem nos salva mais uma vez? Nossos queridos amigos ianques, que vieram salvar o nobre esporte das iniquidades e arbitrariedades cometidas contra nosso patrimônio espiritual! E desde quando o governo norte americano entende alguma coisa de moralidade? A grande mídia, cúmplice de toda a pataquada,  posiciona-se e pronuncia-se com nítido embaraço e constrangimento. Diante de um espetáculo público de grandes proporções e repercussão internacional, não pode mais oferecer seu tendencioso silêncio. Para escapar à navalha e livrar seu pescoço, levanta novamente a bandeira velha e puída do mito, em tom dramático e teatral: o futebol, paixão nacional, tornou-se mais uma vítima da corrupção; o sagrado símbolo de nosso povo foi profanado por vilões. Estamos em crise, a economia está em crise, a política está em crise, o FUTEBOL ESTÁ EM CRISE! Meu deus, vamos todos nos matar! Povo brasileiro, uní-vos! (Mas só depois do jogo para não perdermos o lucro do merchã!)

A indignação simulada dos âncoras de telejornais beira o patético, o risível. Mas tudo bem, proclamar o óbvio em tom de novidade exigiria mesmo muito preparo e habilidade. Só faltou aparecer o Galvão Bueno chorando e sendo consolado pelo Ronaldinho. Fazer do futebol, como se fosse uma entidade abstrata, a grande vítima dessa história é no mínimo um tremendo absurdo. Não há vítimas e, mais ainda, não haverá culpados.

O futebol não é mais um ícone exclusivo, uma grife genuinamente brasileira. O carnaval aparentemente continua sendo… ufa. Ao menos por enquanto, podemos fingir inocência e respirarmos aliviados sem temer devassas.

Apesar de nossa influência na Federação Internacional de Futebol ainda ser grande (legados de João Havelange), o futebol se espalhou pelo mundo e mesmo nos gramados já não reinamos absolutos. Depois do resultado do jogo contra a Alemanha na Copa do ano passado, o país mergulhou na mais profunda depressão e descrença. Não sei, mas às vezes tenho a impressão de que por trás de boa parte das vozes da inconformidade e do barulho das panelas, ainda estão os ecos da indignação com o vexame do 7×1. Quer dizer que o futebol sustenta a nação? Que um resultado de jogo pode levar o país à desordem e toda uma população às ruas, ou, no caso de quem pode arcar, aos divãs de psicanalista? Talvez…

O que restará dessa pobre nação sem sua alma? Em tempos de combate à corrupção e histeria coletiva, o povo vai para as ruas protestar com camisetas da CBF, mas continua a encher as arquibancadas aos domingos…

A questão é que durante muito tempo fizemos, e ainda fazemos, vistas grossas às inúmeras contradições que envolvem nossa suposta paixão. Quem sabe a paixão suporte tudo e, ao menos quando ao futebol sejamos todos um pouco “mulher de bandido” (embora eu odeie a expressão, não poderia perder o jargão, quero que me entenderão). O que dizer dos inúmeros craques vendidos a times europeus, negociados como mercadoria humana em verdadeiras bolsas de valores? Ou o futebol cinicamente feito de única opção de sucesso para inúmeras crianças privadas da educação e de inclusão, como se essa fosse uma prova de justiça social ou de nossa fantástica meritocracia? O que dizer das negociatas envolvendo direitos de transmissão, a construção de estádios ou os patrocínios milionários? Basta ver que dos patrocinadores do futebol brasileiro, boa parte deles são instituições financeiras, bancos ou megaempresas. Ninguém acha estranho? Isso quando o patrocínio não beira o absurdo, como por exemplo ver uma marca de refrigerantes patrocinando um esporte. Não sou profundo conhecedor do tema, mas suspeito que uma investigação cuidadosa certamente revelará times patrocinados por marcas de cerveja ou mesmo de cigarro. Isso, é claro, sem falar do mistério dos técnicos gordos, já que falamos de maus hábitos de saúde. Talvez mesmo o presidente da Confederação de Futebol jamais tenha jogado sequer uma pelada em toda sua vida, exceto se for com alguma modelo internacional em uma suíte de hotel de luxo.

O futebol, todos os dias, questiona publicamente uma série de outros mitos, sem que botemos reparo, como é o caso do falso mito da democracia racial desmascarado em manifestações de preconceito e intolerância dentro dos estádios. Talvez esteja na hora de assumirmos que somos um país de pernas-de-pau. Ou então, seja a hora de levarmos um pouco mais a sério as regras do jogo, as invés das regras jogadas. Aliás, aproveito para fazer mais uma confissão. Nunca entendi a regra do impedimento. Dezenas de boas almas já tentaram, sem sucesso, me explicar. Mas não tem problema, o que importa é que aprendi no fim, a culpa é sempre do juiz, ou ao menos de sua mãe… é só soltar um “filho da puta” que está tudo certo. Com um xingamento e uma cara de indignação, qualquer um vira perito em futebol. Interessante notar, inclusive, como a ideia do “roubo” e do “compra” estão popularizadas na falas do futebol… “juiz ladrão”,  “gol roubado”, “jogador vendido”, “futebol comprado”… futebol e crime parecem ter uma longa e estranha simpatia e cumplicidade.

Infelizmente ainda temos medos de questionar nossos mitos. Quem sabe, de repente, animada pela ocasião, metade da população brasileira não resolva assumir publicamente e sem constrangimento que no fundo nunca gostou de futebol e que prefere o nado sincronizado ou o ping-pong? (O MMA não vale porque é modinha) Aliás, lembro-me que, na infância, boa parte de meus amigos (que também odiavam futebol), quando perguntados sobre seu time, sentiam-se sempre constrangidos a filiarem-se a algum. A escolha era o time da casa, é claro, afinal, futebol e família são instituições sagradas em nosso país. Obviamente que não davam conta de sustentar uma conversa mínima sobre o assunto. A farsa acabava quando eram perguntados sobre a coisa mais elementar como o resultado do jogo do último domingo. Explicavam-se dizendo que não acompanhavam muito, mas ficava sempre aquele climão, aquele desconforto, como se aquele sujeito sem time cometesse um crime ou ferisse gravemente a alma nacional. No meu caso, optei pelo desprezo ao professar minha fé, ou melhor, a falta dela. Sempre achei a cara de espanto e o silencio embaraço melhores que a conversa fiada sobre uma coisa que nunca consegui entender. Mas aí um dia fiz um gol contra e finalmente passei a ser respeitado.  Seja como for, aprendi desde cedo que, gostemos ou não, seremos obrigados a fingir ou tolerar o futebol e seus desmandos.

Não quero aqui fazer pouco do esporte, tampouco desfazer daqueles que o praticam nas quadras de clube, ou, especialmente campinhos mal-cuidados de bairro, esquecidos por um sistema perverso que gasta milhões financiando clubes que mais se parecem com empresas. Talvez, se é mesmo que existe uma alma do futebol e um espírito esportivo, esse certamente está muito mais bem representado nesses pequenos espaços do que nos mega eventos e campeonatos por onde correm rios de dinheiro em gramados verdes que, em sua essência, mais se assemelham a lamaçais ou pântanos imundos. Mas preferimos o espetáculo… poderia um esporte popular espalhar-se pelo mundo não fosse a força avassaladora e destrutiva do dinheiro?

Nesse momento, estamos diante da imperiosa necessidade de enfrentarmos ou mesmo de repensarmos nossos velhos mitos e de, pelo menos uma vez na vida, o fazermos de forma clara e aberta. Pode o mito resistir ao pó e à sujeira? O chacoalhão talvez ajude, mas penso ser difícil algo verdadeiramente profundo. O futebol sempre foi assim e dificilmente mudará. Há inúmeros interesses por trás de cada jogo, de cada partida, milhões investidos em cada transmissão de quarta-feira em horário nobre. Há interesses mesmo na suposta moralização do futebol, no teatro barato da caça às bruxas e do combate à corrupção. Ironicamente, nesse caso, não escuto panelas ecoando nos estádios… Portanto, paremos de moralismo, de histeria ou de ingenuidade tola. Talvez não queiramos enfrentar a situação da forma como realmente devemos enfrentá-la. Mitos não resolvidos sempre descambam para o obscurantismo.

E o que dizer da FIFA? Será que se não fosse uma investigação internacional, movida pelos arautos dos bons costumes, da democracia e da honestidade (também chamados de USA) teríamos iniciado alguma coisa daqui de baixo? Ora, e não venham simular surpresa. Não quero parecer um louco, alimentar conspirações, mas tenham certeza de que mesmo a boa ação que nossos queridos amigos do norte fazem esconde e oculta razões não lá muito cristãs. Mas nesse caso, Tio Sam é tão poderoso que conseguiu fazer cair o magnata do futebol. Joseph Blatter, depois de anos, renunciou ao trono. O que poderia (ou quereria) fazer o país do futebol? Além disso, o que muda? Sinto que o futebol, aqui ou lá fora, é e continuará sendo comandado por uma legião de empresários, lobistas e dirigentes gordos e corruptos. O futebol faz dinheiro! E como! E continuará a fazer!

A coisa é tão grave que já virou paranóia, ameaça reviver velhos fantasmas e tomar contornos de Guerra Fria, causando um novo mal estar do Ocidente (leia-se USA) com a Rússia. Dada a incrível capacidade humana de brigar por coisas incrivelmente estúpidas, daqui a pouco faremos guerra por causa de uma porcaria dessas! E se uma guerra eclodir por causa de uma bola, tenham certeza, meus caros concidadãos, que nosso vasto exército de futebolistas será feito de soldado, nem preciso dizer para lutar ao lado de quem. Da minha parte, não moverei um músculo sequer para jogar uma partida que não é minha.

Os profissionais que me perdoem o amadorismo, mas sou mesmo ruim de bola e, espero, de chute! E como todo dia é dia de bola, “bora” abrir aquela gelada! Espero estar dormindo antes do primeiro gol…