Capitães da areia e maioridade penal

"Jorge Amado" - Autor desconhecido

A discussão sobre a redução da maioridade penal me faz pensar muito em “Capitães da areia”. Embora o romance de Jorge Amado trace muito bem o cenário da criminalidade infantil, nas próximas linhas abordo principalmente as primeiras páginas do livro, o capítulo “Cartas à redação”. No factício Jornal da Tarde da cidade de Salvador, algumas personagens discutem acerca da validade da pena para os jovens. De um lado, a favor da criminalização do grupo de Pedro Bala, um cidadão de Salvador, o Secretário de polícia, o juiz de menores e o diretor do reformatório. De outro, Maria Ricardina, mãe de um garoto já preso no reformatório, e o Padre José Pedro que revelam o lamentável tratamento dado pelo diretor aos meninos detidos.

Mesmo publicado em 1937, o debate das “Cartas à redação” continua nas páginas dos jornais de hoje, motivo pela qual achei interessante escrever a seguinte poesia:

Capitães da areia e maioridade penal

Há setenta anos o mesmo jornal

As crianças ainda provocam medo

O crime parece começar cedo

Ninguém quer sabe da raiz desse mal

 

Se pede apenas o irracional.

A fúria, esse sentimento azedo,

Detrata a criança como um brinquedo

E só a entende como ente criminal

 

Segundo o jornal não há punição

Não é o que diz a mãe sem esperança

Mas ainda querem vê-las na prisão

 

O castigo surge como vingança

Para quem já nasceu sem permissão

Porque não se dá pobreza à criança.