Pequenos absurdos em “Crônica de uma morte anunciada”

Foto de MULADAR NEWS

“Porque me recusava a admitir que a vida acabasse por se parecer tanto à má literatura”

Confesso que sou suspeita para falar de Gabriel García Márquez. Meu primeiro contato com ele foi através de uma leitura obrigatória para espanhol, ainda na escola – lemos (ou eu li, porque nenhum dos meus amigos fez o mesmo) o original de A casa tomada. Foi amor à primeira vista por Gabo e pelo realismo mágico, que perdura até hoje.

Minha indicação, no entanto, não vai ser sobre o conto – não hoje. Ao invés do clima tenso que predomina nele, ficaremos com o Gabriel García Márquez que faz o leitor rir do absurdo, em Crônica de uma morte anunciada.

Trata-se de um romance curto, de leitura rápida. O narrador reconstrói passo a passo do homicídio de Santiago Nasar, muitos anos depois do crime que marcou toda a cidade, com base nas memórias das pessoas que viveram na época (e dele próprio) e em restos de um processo judicial. Como em um quebra-cabeça, fatos aparentemente desconexos se juntam de forma surpreendente, em um panorama de tipos sociais quase caricato.

Além das surpresas do enredo, impossível não se surpreender com o humor absurdo que predomina no livro. Piadas sutis e pequenos exageros aproximam a vida dos personagens da “má literatura”, revelando sua insensatez cotidiana. Para ilustrar, basta dizer que, como o próprio título diz, a morte de Santiago Nasar foi anunciada pelos seus algozes – tão anunciada que ninguém pensou em contar à vítima, todos presumindo que ele já sabia.