Touchscreen

Foto de Toshihiro Gamo

A situação estava normal até alguém tropeçar em mim. Ela se desculpou rapidamente e continuou seu percurso concentrada em um tipo de aparelho que segurava com as mãos. Acompanhando-a com os olhos por um momento tive a impressão de que ela ia rastreando algo no chão com o seu dispositivo enquanto andava – mas não, no caso essa é a impressão lógica que uma pessoa de outra época teria ao ver alguém caminhar todo encurvado com o olhar dirigido para baixo.

O efeito desse contato brusco desfez o feixe do véu que cobria o espírito do tempo a que chamamos de nosso: os homens e as mulheres à minha volta haviam descoberto um novo mundo, um planeta retangular que emite luz própria e reage a um simples toque com a ponta dos dedos. Ao romper os paradigmas da ciência convencional, esses mares nunca dantes navegados trouxeram consigo um vasto léxico para dar conta de suas características mais variadas: iphones, smartphones, ipads, tablet, ipods, dual chip, ios, android, quad core, slim, blackberrys, 4G, apps, lumias, galaxies, xperias etc.

Mediante a simples observação de alguns espaços de sociabilidade, foi possível verificar que além de assimilar essa nova linguagem as pessoas se viram na necessidade de desenvolver um comportamento específico, tanto no habitat doméstico como ao ar livre em uma avenida. De repente todos estavam imersos nesse pequeno universo, maravilhados com as belezas do que viam e ouviam, do que curtiam e compartilhavam, das mensagens enviadas e recebidas, dos vídeos proibidos, das fotos engraçadas ou ensanguentadas, das velhas anedotas regravadas, das frases de bom dia-tarde-noite pintadas com flores e belas crianças, das correntes de ódio e preconceito, do bizarro e do exótico.

Passando repetidas vezes por aquelas vias urbanas, mantendo as fronteiras do convívio social com a naturalidade de sempre, como pode agora isso me parecer estranho? Um mundo touchscreen, online, rápido e imparável – fomos capazes de inventar a mais curiosa forma de promover a comunicação entre os seres vivos, deslocando o lugar real da fala para o espaço virtual. Nunca o conceito de “celular” fez tanto sentido. Cada um se mantinha isolado, mesmo se estivesse acompanhado: o casal de namorados, os estudantes voltando da escola, a moça da loja, os indivíduos dentro dos carros parados no semáforo, o guarda de trânsito, a madame, o homem de terno apressado – todos na tarefa interminável de dedilhar compulsivamente o fluxo de notícias do Facebook, de responder ao sininho do WhatsApp, de dizer Sim/Não em algum aplicativo que exige dedicação constante.

Todavia, há ainda aqueles que não se rendem a essa sedução – pude constatar isso quando vi um senhor de meia idade andando normalmente, a cabeça erguida como que a observar a paisagem do seu entorno. Não podia perder a oportunidade de conhecer um sobrevivente de outra era, um verdadeiro dissidente, e, quando passei por ele, perguntei as horas para puxar um assunto. Trágica esperança a minha. Embora estivesse com um relógio no pulso, ele tirou do bolso um aparelho celular; apertou um botão lateral, deslizou o indicador na tela e disse: São treze horas. Mal tive tempo de agradecer a informação e ele saiu em passos rasos, a cervical inclinada para frente, o olhar fixo como um cego a contemplar aquela realidade imanente que repousava inquieta em suas mãos.