Estado Laico versus Bancada Evangélica

Laico, palavra derivada do grego laïkos, é aquilo que se desenvolve a partir de suas próprias regras. O conceito de Estado laico é compreendido, portanto, como a não submissão do Estado às leis e preceitos religiosos.

O que significa viver em um Estado Laico?

É simples entender a importância de viver em um país assim quando invertemos os papeis. Imagine ser cristão, e viver em um país com maioria devota ao candomblé. Agora imagine que o governo, através de leis e decretos, proíba sua demonstração de fé. Ou sendo menos radical, comece a ensinar ao seu filho, na escola, princípios que são contrários aos que sua religião acredita, ou comece a doutriná-lo a seguir determinada religião. Não seria muito legal, não é? É fácil perceber quando há opressão, quando nos colocamos na pele do oprimido. Mesmo com um exercício tão simples, muitas pessoas não conseguem concluir o mesmo que concluímos agora.

Por que, então, vivemos em um Estado laico com um Congresso cheio de partidos cristãos e bancadas religiosas? Muitos cidadãos, no momento do pleito eleitoral, pensam em seus preceitos religiosos na escolha de seu candidato, fazendo com que a cada eleição, mais candidatos procurem se ligar a grupos religiosos a fim de angariar mais votos.

As bancadas trabalham em projetos de leis e na aprovação de projetos que agradem não necessariamente a população que votou nos deputados e senadores como seus representantes, mas em mudanças que tragam benefícios aos seus financiadores.

No Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado), é fácil identificar diversas bancadas — entendidas como coletivos de políticos eleitos que se reúnem sob temas em comum. Existem as bancadas partidárias, formadas pelos candidatos do mesmo partido, bancadas ideológicas, como a evangélica, por exemplo, ou a ruralista; enfim, uma infinidade de combinações, limitada pela convergência dos interesses e objetivos.

Se a formação de bancada é uma dinâmica comum à democracia brasileira, por que então, tanto problema com as bancadas religiosas? O crescimento da representação religiosa no Congresso, principalmente a partir da bancada evangélica é preocupante, pois estes deputados e senadores buscam modificar direitos individuais básicos, garantidos a todos na Constituição. Projetos de leis que representam opinião de parte da sociedade, construídos e regrados a partir de preceitos cristãos são levados à Câmara e ao Senado a fim de serem impostos à todos. Projetos que desrespeitam Direitos Humanos básicos como o direito de liberdade de crença, de expressão, direito de escolha.

Enquanto estes deputados e senadores se reúnem sob o teto do Congresso Nacional e rezam um “pai nosso” contra a manifestação e intervenção artística da transexual Viviany Beleboni na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo/SP, se calam diante do assassinato do jovem de 14 anos, Rafael Barbosa de Melo, morto por apedrejamento, crime de homofobia. É a confusão de prioridades, a cristianização das leis e da política que torna a bancada evangélica uma anomalia perigosa à democracia brasileira.