Os brinquedos novos de um jogo antigo

Foto de Firdaus Omar

No dia 16 de junho, foi inaugurado o Parque Patriótico, na cidade de Kubinka, Rússia, pouco mais de uma hora de carro de Moscou. A atração, que segundo fontes oficiais terá custo total de R$1,14 bilhão quando finalizada em 2017, possui diversos equipamentos militares, veículos, espaços de lazer com temática militar e até mesmo lanchonete com rações usadas por soldados. O objetivo da atração, segundo o presidente Vladmir Putin, é servir como base para um “sistema de trabalho militar-patriótico com os jovens”, declaração feita no mesmo discurso em que anunciou a ativação de 40 novos mísseis balísticos intercontinentais, capazes de levar ogivas nucleares ao outro lado do globo.

O parque é, no mínimo, peculiar em sua composição: armas de alta tecnologia e veículos grandes e robustos se tornam brinquedos para as crianças manusearem e escalarem enquanto seus pais admiram a beleza dessa infância tão gostosa – e patriótica. Em tempos de ascensão de uma nova Guerra Fria (se é que podemos dizer que a primeira acabou), o parque traz à tona velhos fantasmas do início do século XX: a romantização da guerra e banalização do militar. O ambiente do combate, das máquinas de matar é, em Kubinka, espaço de recreação para a tradicional família russa. A crueldade da guerra, o horror da violência e da perda da humanidade são esmagados entre a lama e a pompa dos uniformes, fuzis, medalhas, mísseis, belos homens de fronte a bandeiras tremulantes e líderes másculos e nacionalistas. As fantasias de glória e honra que o governo russo incute na mente da população são como bonecos de plástico, reluzentes e bonitos, muito mais agradáveis do que as lembranças realistas e já tão distantes do conflito que quase aniquilou o país.

A tradição russa de respeito e ovação pelas grandes conquistas militares do passado é esquizofrênica: na Parada da Vitória, anual comemoração do final da 2ª Guerra, não há receio em ostentar os símbolos da finada União Soviética nem seus heróis comunistas; durante a própria Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam o conflito), as conquistas militares do Império derrubado pelo próprio governo bolchevique eram usadas como combustível para fundamentar um falso nacionalismo soviético que motivasse seus soldados a correr em direção à morte.

O que se dá na Rússia, hoje, é o reavivamento dessa velha tradição, com o governo trazendo a vida militar para o povo, sob uma forte maquiagem nacionalista e belicosa. Com a anexação da Criméia no ano passado e o atual conflito no leste da Ucrânia, a perspectiva de uma guerra com o Ocidente parece cada vez menos com uma teoria conspiratória e mais com uma previsão verossímil, e talvez o povo russo (e nem mesmo o ocidental) não entenda o que isso realmente significa para o mundo. Talvez sequer haja conflito, e as pretensões de Moscou sejam passageiras, fruto de manobras políticas que visam a coesão interna do próprio país. Essa foi a aposta de Chamberlain, mais de 70 anos atrás.