Genocídio Armênio: Centenário do não (Re)conhecimento

Foto de Arev G.

Apesar de poucos sequer terem ouvido falar sobre o Genocídio Armênio, o massacre tem conquistado maior espaço na mídia por conta do seu centenário e vem suscitando debates acerca do incipiente reconhecimento internacional.

Embora a perseguição por parte do antigo Império Otomano (atual República da Turquia) tivesse bases mais antigas, o Genocídio Armênio teve início em 1915 e resultou em um longo processo de deportações, detenções e assassinatos em massa dos povos armênios. Dando continuidade a uma política “pan-turquista” implantada na década de 1880 – que buscava evitar o já notável declínio do Império através de ações de caráter nacionalista –, o saldo final do genocídio foi a deportação e a morte de 80% da população armênia que ali habitava.

Contudo, em 1923, a Turquia sancionou uma lei que declarava a inocência de todos os turcos anteriormente condenados como criminosos de guerra e até hoje o país nega a ocorrência do genocídio, afirmando que a morte de mais de 1,5 milhão de armênios foi causada pura e simplesmente pelos conflitos ocorridos no âmbito da Primeira Guerra Mundial. Na verdade, a Turquia também não reconhece esse número e defende que o total de armênios mortos varia apenas entre 400 e 500 mil pessoas.

Os primeiros países a reconhecerem o Genocídio Armênio foram França, Grã-Bretanha e Rússia através de uma declaração conjunta, já no ano de 1915. Entretanto, o reconhecimento internacional acerca da existência do genocídio ainda hoje é irrisório, restringindo-se a apenas 20 países, além de pouquíssimos parlamentos e organismos multilaterais.

No Brasil, o assunto ganhou fôlego após a Moção de Solidariedade aprovada pelo Senado Federal no início do mês de junho, a qual incluía o reconhecimento do Genocídio Armênio pela entidade legislativa. O documento gerou constrangimentos entre Brasil e Turquia, levando o governo turco a convocar para consultas seu embaixador no país sul-americano, indicativo diplomático de insatisfação. Entretanto, apesar da Moção, vale destacar que o Estado brasileiro segue não reconhecendo oficialmente o Genocídio Armênio.

Esse exemplo demonstra a complexidade inerente ao assunto, mas também faz surgir algumas questões: Por que outros casos de genocídio são veementemente censurados pelos atores internacionais enquanto o caso armênio nem sequer é reconhecido?; O fato de a Turquia estar localizada em uma posição privilegiada e possuir relações estratégicas com diversos países deveria ser entrave suficiente para que não haja um reconhecimento pleno do Genocídio Armênio?

Parece ser desconsiderada a existência de países que reconheceram o massacre e continuam mantendo boas relações com o Estado turco, como é o caso do Chile, que assinou um Tratado de Livre Comércio com a Turquia pouco tempo depois de reconhecer o genocídio.

Além disso, e principalmente, é essencial perceber que a falta de reconhecimento acaba abrindo espaço para a replicação de novos casos de genocídio, ou seja, abre espaço para a replicação de atentados a comunidades inteiras por conta de suas crenças, etnia ou nacionalidade. É primordial que o debate acerca da temática seja amplo, profundo e emancipatório. Ou será preciso esperar mais cem anos para retomar a discussão?