Sobre o medo que (alguns) homens têm das mulheres independentes

Foto de Vladimir Pustovit

A internet está cheia de matérias do tipo “10 dicas para agradar um homem”. A imprensa vem dedicando longos espaços para falar mal das mulheres independentes. Alguns pseudo-jornalistas conseguem seus cinco minutos de fama e algumas curtidas no Facebook descendo o cacete no feminismo. A questão desse texto é trazer (um pouquinho) das causas que estão por trás desse movimento reacionário (entenda-se, aqui, movimento de reação à independência conquistada pelas mulheres).

Alguns homens simplesmente não aceitam a ideia de viver nesse mundo, povoado por mulheres independentes. Afinal, elas já não precisam mais do dinheiro deles para sobreviver, podemos deixar o relacionamento quando percebem que não estamos mais felizes, exigimos que as tarefas domésticas sejam divididas, estamos diariamente em contato com outros homens, e a qualquer momento podemos encontrar alguém que nos interesse mais do que nossos parceiros. Não aceitamos mais que os homens controlem o que vestimos, falamos ou fazemos.

O que se viu nas duas últimas décadas foi uma profunda transformação da intimidade. O casamento, enquanto instituição, ao qual estavam vinculados a sexualidade e o amor, transmutaram-se em relacionamento. Os ideais de amor romântico fragmentara-se sob a pressão da emancipação e autonomia sexual feminina.

Isso significa o fim dos relacionamentos estáveis entre homem e mulher? Claro que não! Boa parte das mulheres que conheço quer casar ou morar junto com alguém, mas isso não significa que temos que aceitar qualquer tipo de relacionamento em troca de um estado civil que a sociedade julgue “mais adequado”.

Na minha concepção, a instituição casamento foi substituída por algo muito melhor. Emergiu a figura do relacionamento puro, situação em que se entra em uma relação social apenas pela própria relação, pelo que pode derivar da manutenção de uma associação entre duas pessoas. O relacionamento puro é parte de uma reconstrução genérica da intimidade, é livre de âncoras externas, ao passo que só continua enquanto ambas as partes considerarem-se suficientemente satisfeitas para nele permanecerem. O amor romântico é substituído pelo amor confluente, ativo, contingente, que se choca com as categorias de único e para sempre, que presume igualdade na doação e no recebimento emocionais, que introduz a ars erotica no cerne do relacionamento e condiz com uma sociedade em que a oportunidade de realização sexual é almejada por ambos os sexos.

O empoderamento das mulheres e a consequente transformação da intimidade podem ser entendidos como a democratização da esfera privada. Os homens que têm medo do empoderamento e da autonomia das mulheres querem a volta do tempo em que todos os empregos, todas as prerrogativas e todo o poder pertenciam a eles. Eles têm muito medo, na verdade, da democracia em sua versão hard.