A miséria intelectual e a falsa polêmica de Zeca Camargo

Foto de Olimor, via Wikimedia Commons

Como jamais, nunca, de maneira alguma, assisto à TV aberta, e não há pessoas idólatras desse estilo musical entre meus amigos e contatos nas redes sociais, não fazia ideia das proporções estrondosas que se amoldaram em torno da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. Claro, eu também não sabia quem era Cristiano Araújo, assim como não havia acompanhado a crônica de Zeca Camargo, pois não assisto à “Globo News” pelos mesmos motivos que não assisto à sua emissora matriz. A polêmica acerca das palavras utilizadas pelo jornalista, porém, ecoou de maneira tão ampla, que chegou ao meu conhecimento, por mais esforço que eu faça para me manter alheia a esse tipo de inutilidade. E qual não foi a minha surpresa ao constatar que a tal crônica não continha absolutamente nada que suscitasse tamanha histeria coletiva.  O teor do texto limita-se a chamar a atenção dos espectadores ao fato de que a espetacularização da morte do cantor extrapolou em muito o alcance se sua figura pública enquanto vivo. Ora, para mim, trata-se de uma constatação incontestável, que, em nenhum momento, foi ofensiva ao morto. Além disso, Zeca fazia algumas reflexões falaciosas, alertando sobre a necessidade de buscarmos “ídolos de verdade” e “herois”, citando como exemplos as perdas de Sena, Michael Jackson, Lady Di, Kurt Cobain, “Mamonas” e Cazuza. Este último, eu também considero uma perda significativa, embora desconfie que esteja na lista de ícones devido à sua relação pessoal com Zeca. Veja-se que bizarro, aliás, é tal rol exemplificativo de “grandes ídolos” cadaverizados. Assim, quando pretendeu realizar uma crítica acerca da pobreza cultural do Brasil atual, Zeca Camargo nada fez além de suspirar ansioso pela projeção do ufanismo oco através de um ídolo ou um heroi, reconhecendo, nesse ponto, a necessidade da coletividade por um elemento catártico. Todavia, esse reverso da pobreza cultural apresentado como solução por Zeca está muito, mas muito longe mesmo de qualquer riqueza cultural. O próprio Zeca Camargo é, ao mesmo tempo, instrumento e artífice dessa pobreza cultural que ele acredita denunciar, e esses tais ídolos que ele elenca são produtos forjados pela mesma indústria cultural que se alimentou da morte do cantor sertanejo. Curiosa, inclusive, a revanche dos revoltados acéfalos, que, nas redes sociais, empreenderam a campanha “quem é Zeca Camargo?”, pois, de fato, nem Cristiano Araújo nem Zeca Camargo possuem nenhuma relevância para a edificação da cultura brasileira. Tais revoltados, inclusive, são o resultado da falência absoluta da cultura e da educação no Brasil, pois apresentam problemas seríssimos de linguagem – nunca entendem o que leem e ouvem e reagem à sua compreensão pífia de maneira violenta. A cultura é a manifestação da criatividade que emerge das experiências de uma coletividade, para representar seus valores e ressignificar o entorno, porque a linguagem cria, transforma, seja qual for sua modalidade de expressão. Todavia, essa cultura não tem espaço numa sociedade controlada pelo mercado. É absolutamente tolo confundir produtos da indústria cultural com cultura, pois, enquanto estes últimos são projetados para alienar, aquela existe idiossincraticamente para emancipar. São coisas absolutamente incongruentes. A indústria cultural trabalha com produtos de consumo, criando tais produtos a partir de uma artificialidade estética muito elaborada, ou capturando qualquer manifestação artística ou cultural que possa ser convertida em produto, com a devida adaptação. Neste ponto, é oportuna fazer uma observação, que, porém, mereceria muito mais ampla abordagem: o sertanejo universitário (estilo do cantor que causou tanta comoção) é justamente a conversão da originária música caipira (verdadeira manifestação cultural) num produto enlatado, pasteurizado, e esvaziado de significado subjetivo que, porém, é capaz de movimentar vultuosas cifras enquanto produto de consumo. Essa operação da indústria cultural é brilhante, pois, ao criar um produto cultural, ao mesmo tempo, manipula seus contornos para que suas características estéticas sejam universalizáveis e consumíveis pelo maior número de pessoas possível, e, ao fazer isso, esvazia os produtos culturais (como músicas e filmes, por exemplo) de qualquer elemento linguístico ou musical que fomente a reflexão. Por isso, os filmes contêm artifícios como grandes explosões, que dispensam a complexidade narrativa, ou as músicas comportam tantos “lá,lá,lepo,lepo,ieieiê” ou trabalham com níveis rasíssimos de linguagem e cognição, que transitam num universo de significações que não demanda nenhuma formação intelectual para compreensão dos conteúdos (“te liguei bêbado fora de hora que nem cê tá fazendo agora ligando a cobrar chorando, querendo me amar” – Cristiano Araújo). Ou seja, esses produtos são consumíveis pela grande massa porque são emburrecedores, e são emburrecedores para serem consumidos pela grande massa. Essa é a principal artimanha da ideologia dos nossos tempos. Isso quer dizer que: NÃO, não é mera questão de gosto, pois esse suposto gosto é fabricado pela mesma indústria que fabrica os produtos de consumo, projetados para idiotizar pessoas. Dessa maneira, a polêmica levantada por Zeca Camargo é absolutamente falsa e vazia. Ele se apresenta surpreso com os rituais fúnebres gigantescos para um cantor desconhecido (desconhecido, inclusive, porque sua imagem não havia sido explorada massivamente pela grande emissora da qual Zeca faz parte), mas sua indignação aponta como solução o mesmo mecanismo que criou essa desproporção – a indústria cultural. A exploração midiática dessa morte ainda está rendendo muito, assim como a falsa polêmica criada pelo jornalista. E a reação violenta que ele está experimentando é a mesma que temos visto nas disputas eleitorais e nas grandes questões políticas dos últimos tempos. Na semana em que a Câmara vota a redução da maioridade penal, as pessoas estão preocupadas em violentar Zeca Camargo, através redes sociais, por uma ofensa que ele jamais proferiu. E, se perguntadas sobre redução, serão a favor, pois são autômatos gerados por essa indústria cultural que retira a humanidade dos seres humanos quando esvazia sua subjetividade para que consumam e suportem as estruturas. Porém, quando se reduz a capacidade cognitiva, reflexiva e emancipadora de um ser humano, o que sobra? Violência e barbárie. Essa é a verdadeira e assustadora reflexão.