Os brasileiros que o Congresso não vê

Crédito: Petr Dosek

O infeliz episódio que tomou nosso Congresso no dia de ontem (01/07) me trouxe à memória meu amigo Bruno.

Conheci o Bruno por acaso. Foi em uma rotineira viagem de metrô até a rodoviária do Tietê (de onde também faço a rotineira viagem São Paulo-Franca). Foi uma daquelas amizades efêmeras que somente a cidade de São Paulo pode oferecer. Sem desmerecer as demais cidades, mas em São Paulo o contato entre desconhecidos tem um valor (e choque) particular.

Nossa relação de amizade começou ainda na plataforma da estação São Judas, da Linha Azul. Aguardava pela próxima composição pacientemente quando notei um garoto se esgueirando atrás de mim, claramente evitando ser notado pelos funcionários e seguranças do Metrô. Ele carregava uma mochila azul desbotada e vestia roupas maltratadas que não escondiam os arranhões em seus braços e pernas.

Enfim, a composição estacionou na plataforma e nos convidou a embarcar.

Bruno sentou-se em uma extremidade vazia do vagão, enquanto os demais passageiros evitavam tomar os assentos próximos dele. Resolvi desafiar o espetáculo e me sentei ao seu lado.

Com uma perícia invejável, Bruno sacou sua mochila, abriu-a, e logo tirou de dentro um punhado de moedas e notas amassadas. Sem perder tempo, começou a contar. Logo percebi a razão de sua furtividade quando ainda estávamos na plataforma da estação, e perguntei:

“Eles iam tomar suas coisas?”

“É. Os caras [seguranças do Metrô] pegam mesmo”, respondeu com um sorriso irônico.

“E como você conseguiu esse dinheiro?”

“Trabalhando. Vendo e peço no farol pra ajudar em casa”, explicou.

Sem querer atrapalhar sua matemática, permaneci em silêncio até a próxima estação (de toda forma, o volume dos túneis do metrô inviabilizava qualquer diálogo). Quando estacionamos na estação, constatei o óbvio: os que ingressaram no vagão optaram pelos assentos mais distantes. A presença de Bruno incomodava.

Aproveitei o sossego da composição para retomar nossa conversa:

“Me chamo Jonathan, e você?”

“Bruno”, respondeu curtamente.

“E quantos anos você tem, Bruno?”, emendei.

“Treze”, replicou.

Aquela informação atingiu-me como uma flecha. O aviso sonoro de fechamento das portas do metrô tomou o ambiente enquanto me afogava em angústia. As portas do vagão se fecharam e ninguém notou minha desolação. Involuntariamente, Bruno desferiu o golpe mais violento que poderia imaginar.

Aproveitei o intervalo de nosso diálogo, imposto pelo ensurdecedor barulho dos trilhos, para cair em reflexão. Aos treze anos de idade nunca precisei me preocupar em trabalhar para ajudar no sustento doméstico. Minha única matemática era a que envolvia o troco do lanche do colégio e os pacotes de figurinhas que pretendia comprar, além daquela da sala de aula. Já que toquei no assunto, sempre estudei em colégio particular e tive meu translado entre a casa e a escola garantido por um transporte também particular. Meus professores estavam sempre dispostos a atender minhas dúvidas até se certificarem de que eu havia compreendido todo o conteúdo (caso as dúvidas persistissem, plantões de reforço eram uma possibilidade). Aos treze anos, minha única preocupação era fazer minha lição de casa o quanto antes para poder mergulhar no videogame (que, é claro, era o de última geração), nunca passou por minha cabeça aventurar-me em um vagão sujo do metrô em plena noite paulistana (a não ser que fosse em algum jogo novo). Aos treze anos, era uma criança de sorriso fácil e que cativava com o brilho ingênuo do olhar.

Em Bruno, notei um olhar melancólico de uma criança que teve sua ingenuidade sequestrada pela realidade. Seu sorriso não era fácil e só surgiu de forma irônica ao falar do risco diário de ter seus pertences confiscados. Aos treze anos, Bruno precisa encontrar tempo no seu duro expediente para estudar e se divertir. Aos treze anos, Bruno já é marginalizado. Tão novo, sabe o que é ser violentado diariamente por uma estrutura social que segrega (sabe o que é sentar isolado num vagão de metrô). Aos treze anos, Bruno teve sua infância roubada.

Minha reflexão foi interrompida no momento em que Bruno se levantou para descer em uma estação. Não notei que o vagão já estava cheio. Algumas estações haviam passado. O menino deslizou pela multidão e saiu. Despedi-me de meu amigo com um sorriso tímido, esperando um dia reencontrá-lo.

Não me causaria surpresa, contudo, se nosso reencontro fosse atrapalhado por um intruso de metal frio. Tampouco ficaria espantado se Bruno, ao invés de um diálogo, estivesse apenas disposto a ordenar e demandar alguns objetos que eu possa estar carregando. Surpreso estaria se Bruno me atualizasse de suas novidades e me contasse que já está pensando no curso superior que quer ingressar.

Por esse motivo, peço desculpas, amigo. Lamento pelos infortúnios que sofreu, pelo distanciamento das pessoas sobre sua condição, pelos olhares tortos que te alvejavam.

Conheci Bruno quando seus olhos carregavam desalento, não me surpreenderia se reencontrasse Bruno com olhos inflamados de ódio.