Schopenhauer e a arte de acabar tendo razão

Schopenhauer - Tela de Jules Lunteschütz

Em A arte de ter razão (tradução de Alexandre Krug e Eduardo Brandão), Arthur Schopenhauer (1788-1860) analisa os principais esquemas argumentativos mobilizados por impostores para vencer debates sem ter razão. Dentre os 38 estratagemas descritos no livro por Schopenhauer, o mais usado consiste em escolher a palavra que reforce a imposição da ideia central quando o “discurso é sobre um conceito geral que não tem um nome próprio”. Segundo o filósofo, a predileção por esse estratagema se explica pelo fato dele dar ao enunciador a chance de usar, em benefício próprio, as distorções conceituais geradas pelas brechas inerentes às suas escolhas retóricas. Com isso, explica Schopenhauer, “aquilo que se quer dizer é introduzido já na palavra, na denominação, da qual se deriva por um simples juízo analítico”. Por sua vez, isso gera um raciocínio circular que esconde na sua premissa a conclusão que o debatedor quer fazer prevalecer “per faz et nefas [com meios lícitos e ilícitos]”.

O exame cuidadoso que Schopenhauer faz desse estratagema é revelador do alcance político dessas estratégias, e mostra que, em muitos casos, o debate franco e honesto sequer se instaura em discussões que parecem honestas e pautadas por uma argumentação lógica e rigorosa. Ao apontar para esse fenômeno, sua análise contesta radicalmente as noções ingênuas de neutralidade e imparcialidade que sustentam as nossas práticas discursivas diárias, das mais banais às mais intrincadas. De fato, ao examinar a relação direta entre nomeação e argumentação, Schopenhauer mostra que esse processo sempre utiliza, de maneira não raro capciosa, a carga semântico-ideológica que uma palavra adquire ao longo da sua história.

Dito de outro modo, ainda que o filósofo não formule o problema nesses termos, fica implícito no seu texto que numa situação argumentativa, nomear é tentar impor uma visão individual, travestida de opinião geral, sobre outro indivíduo ou grupo, para legitimar, honestamente ou não (isso pouco importa), um ponto de vista particular, restrito e mal-intencionado. Essa imposição, diz Schopenhauer, raramente falha nos seus propósitos, e quanto mais sutilmente depreciativa ela for, maior será o seu efeito de convencimento, principalmente se o interlocutor tiver poucas condições de perceber a manobra retórica e contra argumentar na mesma proporção. Consequentemente, quanto maior for o grau de sutileza da depreciação e distorção conceitual criada, mais eficaz será a instauração da falsa consciência pretendida pelo sujeito desse discurso viciado e, portanto, maior será sua capacidade de convencimento durante o debate.

Exemplos correntes que ilustrem a prática descrita por Schopenhauer são inúmeros e variados. Eles são diariamente encontrados em jornais e revistas de grande circulação, praticantes do jornalismo sério ou simplesmente advogados de interesses políticos escusos e muito bem marcados discursivamente. Se fizermos o exercício de ler o noticiário a partir da perspectiva da dialética erística que Schopenhauer descreve, perceberemos, sem muito esforço até, que esses veículos de comunicação frequentemente caem na esparrela de defender assuntos e posições insustentáveis do ponto de vista humanístico. E fazem isso com tamanha desfaçatez que a maioria absoluta de seus leitores sequer percebe as confusões conceituais que são vendidas como informação isenta.

De fato, talvez um dos grandes trunfos da opinião pública raquítica que temos hoje é o fato de ela ter convencido uma parcela considerável de uma população pseudo-informada e pseudo-politizada a comprar bovinamente a ideia de que informação é conhecimento. Nada pode ser mais mentiroso, se analisarmos bem de perto a natureza dessas duas noções. Nesse sentido, colocar a informação e o conhecimento no mesmo plano é cair numa estratégia retórica de persuasão que só favorece ao enunciador desse discurso descaradamente enviesado. Ou seja, confundir informação com conhecimento, sem pensar na qualidade e no teor do que é vendido como furo ou novidade, é simplesmente se colocar passivamente na posição daquele que acaba dando razão para quem de fato não a tem.