Silêncio de menina, Sufoco da mulher

Foto de Katie Tegtmeyer

Nasceu com voz
Tinha certeza disso
Mamãe lhe disse que chorou alto
Chorou sem compromisso

Mas desde nova, ainda menina
Sua voz foi sendo podada
Tinha que ser mocinha
E mocinha boa não fala nada

Não reclama, não discute
Não questiona, nem se exalta
Menina não comanda, nem lidera
Pra ser sincera, menina nem faz falta

A adolescência foi mais difícil
Porque menina não pode sentir
Só esconde, só concorda
E não se esqueça de sorrir

Mas das fases de menina
Ser mulher foi a de maior pesar
Porque mesmo maior de idade
Ainda não tinha o direito de falar

Ainda não podia questionar
Nem discutir, nem reclamar
Ainda não podia sentir
Não podia sequer amar

Pensou no que diria
Se a sociedade permitisse
Gritaria bem alto: “Eu estou aqui”
Mas não podia, não disse

Foram se arrastando os dias
Começou a se conformar
E a voz que o machismo já não permitia
O conformismo terminou de sufocar