Corte de gastos

Naquele tempo, Jesus se reuniu com a cúpula dos seus discípulos no cenáculo para discutir política econômica.

– Caríssimos, vivemos um momento conturbado. O nosso grupo está passando por uma crise financeira. A arrecadação que temos não consegue mais dar conta de todos os nossos programas e as dívidas só aumentam. Por isso, reuni vocês aqui hoje para anunciar um plano de corte de gastos.

Diante dessas palavras do mestre fez-se um silêncio abafado. Ninguém ousou dizer nada de início, para que se evitasse um debate.

– Continuando… Temos que sair dessa reunião com as diretrizes bem entendidas para salvarmos o grupo de uma crise ainda maior. Como vocês sabem, os fariseus e saduceus de toda a Galileia, Samaria e Judeia estão em nosso encalço querendo que as transformações que iniciamos entrem em decadência. Esses tradicionalistas e conservadores circulam por toda parte disputando as mentes e corações do povo. Por isso, não há outra alternativa para a manutenção do nosso movimento que não passe por uma austeridade, a qual nos dará forças a médio e longo prazo.

Dito isso, Jesus apanhou uma lista e iniciou a leitura das medidas rapidamente, sem que desse tempo de alguém intervir:

– Matheus, aumente a taxa do dízimo para 20%; Thiago, reduza pela metade as doações de pães e peixes aos pobres; João, você fica responsável pelo corte de um terço dos gastos com as escolas de evangelização; André, diminua as despesas com o tratamento dos leprosos; Filipe, você deve tirar da agenda novos auxílios para as viúvas e aleijados. Precisamos fazer isso o mais rápido possível para pagarmos os juros da dívida.

A grande maioria não concordava com essas medidas, mas guardavam isso internamente e não tinham coragem de contra-argumentar. Tomé, porém, o único discípulo canhoto do grupo, tomou a palavra nos seguintes termos:

– Senhor, as previsões de pagamento dos juros da dívida estão condizentes com a nossa arrecadação, tudo é estabelecido pelo orçamento. Por isso, acho que não haveria razão para retirar essas parcelas de nossos programas mais fundamentais.

– Ah, Tomé, meu caro Tomé. Não dá para ficar só expulsando demônio e curando doentes, ajudando pobres e conversando com prostitutas. As regras mudaram, o contexto de diversificação da economia requer uma modernização das nossas ações diante das exigências do mercado.

Pedro não se conteve:

– Essa situação é tudo culpa do Judas que não soube administrar as finanças! Perdemos a autonomia quando ele sugeriu que fizéssemos empréstimos com os romanos. E cadê ele que até agora que não veio?

Jesus rebateu:

– Pedro, não diga o que você não sabe. Judas está nos ajudando muito, tanto que deleguei a ele a tarefa de encabeçar o plano de cortes. Neste momento ele está em uma reunião com os romanos acertando as condições de uma nova ferramenta a ser implementada, chama-se: “superávit” – uma espécie de bônus que temos de pagar a eles para atenuar o montante dos juros, dizem que é uma prática comum em várias províncias do Império.

Diante dessas palavras, Tomé ficou indignado:

– Mas, Senhor, não podemos simplesmente deixar de pagar essa dívida e continuar com o desenvolvimento dos nossos programas? Ademais, quem sabe se essa quantia devida é mesmo legítima ou não?

– Tomé, veja o que aconteceu com João Batista! Ele se recusou a fazer a política de austeridade com o seu grupo no deserto e deu o calote na dívida… E os romanos pediram a cabeça dele, não foi?! Enfim, eu não tenho escolha.

Tomé insistiu:

– Exatamente, Senhor, esses romanos não se importam conosco. Se seguirmos essas imposições, perderemos os nossos projetos originais e viraremos mais um braço desse império. Vamos acabar sendo comprados por eles no final.

E Jesus, já impaciente, usou seu argumento de autoridade para encerrar o disputa:

– Homem de pouca fé! Pare de criticar tudo e confie no que estou dizendo!

Todos ficaram quietos. Tomé também se resignou. Houve um silêncio ensurdecedor de poucos segundos.

– E como daremos essa notícia à comunidade, Senhor? – Indagou Simão, o zelador, para apaziguar o clima de tensão.

– Bom, chame esses cortes de “Ajuste Fiscal”. Diga que será um ajuste leve. E que não precisam de se preocupar pois logo retomaremos o crescimento financeiro e voltaremos com os programas sociais na mesma proporção de antigamente.

Nesse instante a porta se abriu. Era Judas. Ele entrou, dirigiu-se a Jesus, beijou-lhe uma das faces e se sentou. Jesus então perguntou:

– Judas, deu tudo certo com os romanos?

– Sim, mestre, está tudo sob controle. Inclusive, Pilatos te mandou um abraço.