Vitória do ‘Não’: a decadência da austeridade na Europa

Logo depois da eleição do Syriza, o partido encaminhou uma equipe econômica para as negociações com a União Europeia (UE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE). Nessas mediações, o Syriza aceitou a estrutura geral de sugestões da troika, o Memorandum, mas com algumas propostas de modificações: uma demora maior para a redução das pensões e cortes salariais, bem como dos superávits primários. A ideia era tentar suavizar o insuavizável: a austeridade. A UE ao ver a disposição de negociação, pressionou por maiores adesões a alguns compromissos. A proposta de suavização da austeridade foi negada, o que levou Tsipras & cia à ruptura das negociações e à proposta do referendo para consultar a população a respeito.

O Syriza teve diversas dificuldades em lidar com a oligarquia do setor produtivo grego. Ao não propiciar medidas de financiamento para o setor, fez com que ele ficasse estagnado. Enquanto falhava em suas estratégias, pagava disciplinadamente suas dívidas aos credores, criando um gargalo no setor bancário nacional. Isso acumulou para o cenário trágico do setor produtivo grego, já que esgotaram os modos de financiamento interno. É fácil de entender porque a classe dos empresários apoiou o Sim, já que se viram sem opções de financiamento para suas atividades, assim como também é fácil de compreender porque as classes populares apoiaram o Não ao verem seus direitos trabalhistas e serviços públicos cortados.

É preciso fazer algumas considerações sobre a trajetória até chegar no referendo. Primeiro, o referendo não é centralmente sobre o Euro. O fato do “não” ter vencido, não significa saída do Euro. O questionamento à população se referiu apenas às propostas de ajuste oferecidas pela troika. Mesmo que esta encarasse o referendo como uma afronta, não poderia expulsar a Grécia da U.E., de acordo com o tratado.

Angela Merkel definiu as condições oferecidas pelos credores à Grécia como “muito generosa”, porém essas condições são todas parte do programa de austeridade que almeja esmagar o orçamento de políticas públicas do país. É uma proposta impossível de cumprir, já que até agora isso já custou mais de um quarto da renda dos gregos, deixando o país em uma recessão de consumo que não tem como ficar pior. Em teoria, o BCE precisa dar estabilidade financeira aos bancos solventes gregos, mas ao invés disso, cortaram o financiamento deles. Já quanto a reestruturação da dívida, Merkel sequer menciona.

Ou seja, a vitória do “não” indica uma nova tentativa de recuperação econômica, dada agora pela esquerda na Grécia. Se o Syriza tivesse aceitado as propostas da troika, não demoraria muito tempo para o povo grego derrubá-los, já que essas pessoas não aguentam mais a austeridade que têm se perdurado devido a dividocracia. Os credores é que precisam ver o fracasso dos seus receituários e retomar as negociações de uma maneira mais decente e pragmática.

Como disse o economista James Galbraith, se tem um momento que os Estados Unidos deviam falar sobre os valores de decência e democracia, esse momento seria agora.