O dia em que o machismo correu

Crédito: Nó Cultural

Maria já estava cansada antes mesmo de sair de casa. Por que as agências bancárias precisavam ficar tão longe? Aliás, por que ela tinha sempre que esquecer a senha do atendimento online?

Definitivamente, não se entendia com os números. Qualquer sequência acima de dois caracteres culminava em um labirinto de inúmeras alternativas possíveis e ela nunca encontrava a saída certa. Tentou se lembrar das aulas de matemática. Melhor desistir e ir logo no caixa físico, afinal, um pouco de sol não faz mal a ninguém.

Foi mais rápido do que imaginava. Não dava para falar que era divertido ver o dinheiro indo embora da sua conta, mas estava feliz de sair um pouco de casa e dar um descanso para o assento da cadeira de estudos, que já quase se transformava em uma extensão da sua coluna vertebral.

Mas sua felicidade não durou muito. Antes de atravessar a rua já tinha reparado no jovem a encarando na esquina à sua frente. Incomodada, pensou em contornar a calçada e andar no meio fio, mas é sempre nessas horas que o semáforo parece nunca fechar. Resolveu continuar.

Quando cruzou com o jovem encostado na parede ouviu, em alto e bom som:

– Nossa. Gos-to-sa.

Essas duas palavra entraram pelos ouvidos de Maria como se fossem uma gosma verde de lodo fedorento. Geralmente é uma gosma que enoja e ao mesmo tempo trava a sua garganta (de vergonha, de culpa e, infelizmente, de medo também), fazendo com que a mulher não encontre sua voz. Não era a primeira vez que Maria ouvia isso então já conhecia bem a sensação.

Mas dessa vez foi diferente. Pela primeira vez Maria não se calou. Aquelas duas palavras a fizeram se virar tão rápido e com tanta raiva. Vociferou:

– Com quem você pensa que está falando?

O que Maria presenciou em seguida foi uma cena patética. Um homem pulando para trás assustado e tropeçando no próprio chinelo antes de virar a esquina correndo … Literalmente. Maria não teve dúvidas e correu atrás. Xingando. Gritando. Muito.

– O que te faz pensar que tem o direito de falar do meu corpo assim? E se fosse a sua irmã sendo assediada desse jeito? Será que você não percebe como isso é degradante e ofensivo?

Depois de pouco mais de um quarteirão, parou e decidiu voltar ao seu caminho inicial. Em direção à sua casa, Maria não parava de pensar no que havia acabado de lhe ocorrer.

Pensou na sociedade misógina que objetifica a mulher e faz os homens pensarem que têm o direito de invadir seu espaço, de se acharem donos do corpo alheio. Pensou na sociedade compartimentadora que excluiu aquele homem de um debate libertador e conscientizador das próprias atitudes machistas. Lembrou de todas as vezes que deixou de usar uma roupa porque iria sair sozinha e todas as vezes que atravessou a rua para evitar passar na frente de homens na calçada. Pensou em todas as vezes que já ouvira insultos (insultos, sim) parecidos e que não tivera coragem de mostrar sua indignação por uma invasão tão grande.

Mas nessa hora Maria se sentiu empoderada e livre. Pela primeira vez ela reivindicou seu espaço, reivindicou seu corpo. Por não se calar, Maria não permitiu que o ciclo se perpetuasse. Se tivesse continuado andando quieta e submissa aquele homem teria vencido a batalha. Mas ela não se calou. Não se calará.

As palavras daquele homem se repetem na boca de muitos outros (“Nossa. Gos-to-sa”). Mas a Maria não é nossa. A Maria não é sua, nem dele, nem daquele outro. A Maria é dela mesma. Dela e de mais ninguém.