#SomosTodosCorruptos

Crédito: Filipe Bizari

Eu adoro reparar nas conversas indiscretas das pessoas na minha frente em filas. Hábito ruim, mas aprendo muito com esse vício. Dois personagem. Falam sobre a vida, conversam sobre filhos. Até aqui, tudo bem.

Em determinado momento, entramos no assunto política. Reclamam da corrupção, falam mal de todos os políticos, sem exceção. Até aqui, nada mais comum.

Me deparo com uma pequena comemoração sobre a aprovação do projeto de redução da maioridade penal para crimes contra a vida. Comemoram como se todo bandido agora fosse condenado a morte se fizesse alguma coisa. Quis me manifestar, mas preferi ficar quieto. Até aqui, nada incomum.

A conversa volta para o assunto corrupção. Um pouco menos polêmico. Em determinado momento, uma terceira pessoa, provavelmente conhecida pelas outras duas, se aproxima e cumprimenta-as como se não visse há muito tempo. Começam a conversar, voltando ao assunto política, condenam mais alguns políticos à morte, falam mal da presidente. Até aqui, pra mim, nenhuma novidade.

Em determinado momento da conversa, a terceira pessoa se manifesta e diz que precisa entrar na fila. Uma das personagens que já estavam na fila diz em tom baixo: “Pode ficar aqui mesmo, ninguém viu”.  Até aqui, para mim, também nenhuma novidade.

Fiquei indiferente a conversa, não achei pertinente fazer manifestações de desagrado ou descontentamento. Decidi esperar pela consciência da terceira pessoa, que tanto criticou atos de corrupção. A consciência parecia estar de férias. Pequenas corrupções. Ninguém viu. Não vai fazer falta. Não é de ninguém. Como isso me irrita.

Cobra-se lisura com as contas do governo, não queremos ser lesados de forma nenhuma. Isso não está errado. Devemos a todo o momento estar de olho no que acontece na política, no que são gastos nossos impostos. Mas quando o jogo vira, e podemos lesar alguém para sairmos ganhando, nem pensamos duas vezes. A sensação de se dar bem sobre os outros é incrível. Viciante. Quantas pessoas não adoram se dar bem cortando filas, não devolvendo o troco dado errado?

Como é fácil ganhar agrados na campanha eleitoral em troca de promessas de votos. Difícil é entender de onde vem o dinheiro que paga esses favores. Difícil é entender que nada é de graça. Tudo tem seu custo. Uma cesta básica aqui, outra ali, acaba se tornando a dependência de um candidato a uma empreiteira, um empresário, que cobrará favores após as eleições. E esses favores não saem tão baratos assim.

Podemos reclamar da corrupção, mas mais importante que isso: devemos parar de ser corruptos! Sim, somos todos corruptos. E até que isso não mude, até que aprendamos que o nosso lugar é no fim da fila, como todo mundo, até que aprendamos que o nosso voto é muito mais valioso quando dado a um político que não aceita a compra e venda de votos. Até que a nossa consciência funcione e grite: HIPÓCRITA, nada vai mudar.

Pois a doença da política brasileira, tem seus primeiros sintomas em nós, os eleitores.