Sobre o racismo que só se percebe quando se aceita

Bahamas - Foto de Lorenia

Começo pedindo desculpas, pois hoje excederei as 500 palavras propostas pelo site, mas espero que isso não os impeça de prosseguir na leitura.

Quando a campanha “somos todos Maju” começou a circular pelas redes sociais, achei de extrema importância e até beleza, mas logo não pude me furtar de refletir quem eram as pessoas que a compunham. Não falo sobre os negros que a levaram a cabo, é claro. Falo sobre os brancos e, portanto, falo também de mim. E aliás, é sobre mim mesma que venho aqui dissertar, apesar de não ser tarefa das mais fáceis. Na realidade, venho refletir sobre um período da minha história, que não tenho dúvida, em partes, se assemelhará à história de muitos outros brancos.

Meu pai era meu ídolo. Aquele cuja admiração em minha cabeça era incomensurável. De quem quando falava, o peito se enchia de orgulho e os olhos, infelizmente, de lágrimas. Faleceu quando eu tinha 12 anos. Em poucos 12 anos de vida me deixou muitas lições.

Racismo era algo que ouvia desde criança ser ruim. Estudei num colégio de freiras e costumávamos aprender sobre “todos sermos irmãos”, independentemente de raça e cor. Ainda assim, a realidade sempre falou mais alto. Na minha sala, havia um único negro, na época um grande amigo, porém, não coincidentemente, filho da faxineira do colégio.

Em casa, entretanto, piadinhas como “o que são 1.000.000 de negros na lua?” eram motivo de risada. Meu pai contava várias. Eram momentos em família e ríamos, muito. E nada me convenceria, naquela época, de que não eram engraçadas. Crianças, feliz e infelizmente, possuem uma inocência pueril, mas temerária. Riem do que seus pais riem. Falam o que seus pais falam. Raras vezes, pensam diferente deles quando crescem. Hoje é estranho pensar que as crianças dos anos 90 ouviam “depois de 09 meses você vê o resultado” nas músicas do grupo “é o Tchan” e só parariam para refletir sobre seu significado após o ano 2000. Com as piadinhas racistas, não seria diferente. Nós as contávamos na sala de aula. Tão logo sorríamos em casa, ríamos das piadinhas racistas no pátio da escola. Eu também só pensaria sobre elas depois dos anos 2000…

Acredito, eu, que nenhum pedaço da nossa história é inerte. Muito se perde da memória, pouco se perde em nós. Nós somos, além de heranças genéticas, heranças de nossos convívios sociais. Eu não sou (nem nunca serei) a exceção iluminada que, apesar de ter vivido entre brancos, apesar de ter ouvido piadas racistas, hoje bate no peito e diz “somos todos maju” sem resquícios de preconceito. Não mesmo. Eu sou filha do racismo, por mais árduo e doloroso seja reconhecê-lo.

O combate às atitudes das quais discordamos na sociedade perpassa, inevitavelmente, um processo angustiante de autorreflexão. Para nós, brancos, é preciso, no mais das vezes, negar origens e ensinamentos. É preciso, sim, negar piadas. É preciso minimizar as disseminações da cultura do preconceito, ainda que isso signifique a frustração inevitável de perder alguns ídolos.  Mas é preciso, sobretudo, aceitar.  Aceitar sua condição racista é o primeiro passo para combatê-la. Observar sua história e o quanto dela entranhou-se por entre suas ações mais espontâneas, é um exercício necessário para transformar-se. Porque sim, é preciso transformar-se e compreender que este é um processo lento, profundo e, acima de tudo, diário.

Crianças nos ensinam que o clichê sobre as atitudes dizerem mais que palavras é uma verdade consistente. Na imensa maioria das vezes, reproduzem o comportamento de seus pais e não apenas o que dizem. Pouco importa se “somos todos maju” nas páginas das redes sociais, mas, quase que de modo inconsciente (de tão arraigado), desviamos do negro na rua, quando caminhamos ao anoitecer, ou usamos a expressão “cabelo ruim”.  Nossas atitudes não são inofensivas!

Aliás, não são inofensivas nem para nós mesmos. Quando justificamos repetidamente nossas atitudes racistas, estamos reiterando diariamente para nós mesmos um mantra perigoso: “Eu não sou racista”. E quando vestimos essa armadura, nos tornamos capazes de enfrentar o racismo alheio, mas incapazes de extirpar aquele preconceito velado que guardamos dentro de nós.

Esta é a razão pela qual dizer que “você tem um amigo negro” realmente não torna suas ações menos racistas. Quando um negro ou uma negra lhe diz que esta frase não lhe isenta, não é extremismo, é realidade. Eu tive um amigo negro quando pequena, lembram? O filho da faxineira lá da escola? De certo contei pra ele as piadas racistas que meu pai proferia. De certo ele riu, pois quando crianças, talvez não entendêssemos o ranço histórico que carregavam. O problema é que as crianças crescem. Entendem as músicas do é o Tchan e entendem as piadas racistas…

Mas se brancas e crescidas não as negarem, não deixarão de contá-las.

Maju é uma mulher negra, mas é uma figura pública. Fica mais fácil comover-se com as manifestações de ódio a ela proferidas, como ao goleiro Aranha, por exemplo, a aceitar que as pequenas naturalizadas manifestações diárias de preconceito que praticamos, se aproximam mais do que gostaríamos daquelas ofensas.

A verdade é mesmo dura, sobretudo quando versa sobre nós mesmos. Em todas as relações humanas, é preciso mais coragem para assumir os próprios defeitos do que bradar aos sete ventos, ainda que sozinho, a falha alheia.

Meu pai era meu ídolo. Em poucos 12 anos de vida me deixou muitas lições. Doze outros anos se passaram até aqui e eu agradeço todos os dias pelas muitas belas lições que me deixou, mas também agradeço todos os dias, pelas muitas das quais tenho conseguido me libertar.