Financeirização: O que eu tenho a ver com isso?

O surgimento da financeirização foi na década de 70, mas se aprofundou mesmo na década 90. Mudanças como a centralização no dólar como moeda mundial, regimes de câmbio flutuante e liberalização da entrada de capitais fez com que as moedas ganhassem papéis internacionais conforme a importância econômica de cada país.

Como a década de 90 foi marcada pela maior pulverização de multinacionais nos países emergentes e subdesenvolvidos, houve uma pressão dessas empresas para elevação dos juros, já que nesses grupos de países, eles servem como remuneração pelo “risco” dos estrangeiros em negociar com moedas “menos seguras”. Isso reduz o poder de barganha internacional dessas nações, pois a qualquer momento podem ter de lidar com a saída desses capitais e o desemprego e desequilíbrio comercial gerado a partir disso.

Desde o governo Collor, a conta de capitais brasileira foi liberalizada, o que permitiu aos investidores estrangeiros buscar por algo chamado “liquidez dos ativos”. Ou seja, fez com que os investimentos financeiros fossem possíveis com pouca tributação, se tornando mais atraentes do que os investir no setor industrial, já que esse último envolve custos maiores e prazos mais longos para retornos de lucratividade. Esse movimento internacional fez com que os juros virassem o guia do lucro.

Ok, Eduarda, mas qual é o problema disso ou o que é que eu tenho a ver com isso tudo?

Pois bem, o problema é que quase todo o setor produtivo do Brasil está nas mãos das multinacionais. Essas empresas procuraram na última década se instalar em países com mercado consumidor grande e com expansão do crédito, incluindo o Brasil. O crédito funciona como uma valorização financeira para muitas coisas, por exemplo, o setor imobiliário. Quase todo mundo compra imóveis financiados. Como a oferta do setor imobiliário não se altera muito, o crédito gera aumento do preço no setor. Nesse sentido, as transnacionais vêm aqui buscar consumo dos seus produtos e operações financeiras bancadas a juros altos para poder encarecê-los.

As filiais dessas empresas também têm apresentado um retrocesso tecnológico, o que significa que toda tecnologia dessas filiais precisa ser importada das matrizes (localizadas nos países desenvolvidos). Esse processo de importação massiva determina que os lucros dessas filiais sejam enviados ao exterior, acumulando para déficits nas contas externas nacionais, os quais quando persistentes, tornam a economia dependente e facilmente subordinada a crises e choques externos.

Além do problema econômico de vulnerabilidade, isso também limita os gastos do governo.  O aumento dos juros contribui para o peso orçamentário das dívidas externa e interna nas contas do governo, fragilizando a capacidade do Estado de promover políticas sociais.

Apesar dessa tendência global à financeirização, ainda pouco se discute sobre isso nas mídias em geral. É um problema que apesar de parecer só mais um tema chato de Economia, têm profundas consequências no dia-a-dia dos brasileiros, seja no salário de quem trabalha em indústria, seja nos preços, seja nos juros pagos no cartão de crédito e empréstimos ou seja nos recentes cortes do governo nas políticas públicas.