Grécia: a crise da dívida que pode se tornar a crise da democracia

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Enquanto para muitos a crise de 2008 já parece uma lembrança distante a ser evitada, na Grécia ela ainda é uma realidade. Com a terceira maior dívida pública do mundo – representando mais de 170% do PIB do país – e uma taxa de desemprego de quase 30%, o país viu sua economia retrair 25% desde 2008. Após ter recebido da União Europeia e do FMI dois empréstimos nos últimos cinco anos, a conjuntura parece alcançar um ponto de inflexão: ou aceita as medidas impostas pelos credores e recebe um terceiro pacote de ajuda, ou assiste enquanto sua economia entra em colapso.

Como se não fosse o suficiente, a falta de um acordo pode levar a um default grego e uma consequente renúncia do euro como moeda, o que não só traria repercussões ainda desconhecidas para a solidez da União Europeia, como também levantaria dúvidas sobre o projeto de integração escolhido pela Zona do Euro.

A Grécia, portanto, passa por uma crise advinda de sua própria irresponsabilidade fiscal, e ameaça comprometer as economias dos outros países da eurozona através da interdependência monetária, correto? Admitir isso seria ignorar metade da estória.

A outra metade surge quando analisamos os empréstimos concedidos pela Troika Europeia (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional). O dinheiro deveria comprar tempo enquanto o país reestruturava sua política econômica de acordo com as diretrizes europeias. Cinco anos após o primeiro resgate, entretanto, parece certo afirmar que a austeridade não surtiu os efeitos que desejava (basta retomar as primeiras linhas deste artigo). Vendido como a panacéia dos problemas gregos, o remédio se provou mais amargo do que se esperava.

Não somente, a Grécia ainda parece longe de uma dívida sustentável, principalmente se analisarmos a proporção de austeridade que o país teria de implementar para alcançar as metas europeias: pelo menos uma década economizando mais de 7% do PIB somente para apenas reduzir a dívida para níveis aceitáveis, um marco de poucos precedentes históricos, e que impediria o país de investir em educação, saúde e outras pautas sociais, estagnando seu desenvolvimento por pelo menos duas décadas.

Assim, não é prudente reduzir a narrativa a uma interpretação maniqueísta dos acontecimentos. Embora seja impossível ignorar a parcela de responsabilidade da Grécia – o país omitiu seu real déficit orçamentário para se adequar às exigências da União Europeia, sendo pega de surpresa pela crise de 2008 – é igualmente impossível desconsiderar a relação entre as duras condições impostas pela União Europeia e o agravamento da dívida grega.

Ainda que um referendo (05/07) realizado pelo governo grego tenha indicado a oposição popular a outro plano de austeridade, a Grécia está em uma situação pior que há uma semana, o que indica que o país está ficando sem opções. As últimas movimentações apontam para uma retomada das negociações por parte da Grécia e uma aceitação das condições colocadas pela Troika, ignorando o resultado do referendo. No que pode se tornar um golpe à democracia justamente em seu berço caso o governo não respeite a soberania popular, resta saber se o remédio fará efeito ou é apenas mais uma dose de placebo.