Dialética de Francisco

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A moda agora é o Papa. Temos o Papa latino-americano; o Papa que gosta de pobre, que critica o capitalismo, o sistema financeiro global, a austeridade econômica; o Papa que não é homofóbico; o Papa que quer prender padre pedófilo; o Papa que usa um colar com a Foice e o Martelo; o Papa de esquerda.

Todavia, é bom sempre fazer uma perguntinha básica: o que é um Papa? Em que consiste o sumo pontífice senão no grande líder político de uma instituição tradicionalista e ultraconservadora? Uma organização religiosa que zela pela família patriarcal; que concebe a mulher como um “céu de ternura, aconchego e calor”, sem autonomia sobre o próprio aparelho reprodutivo e que não pode assumir as funções rituais de cunho maior dos seus cultos; uma instituição que não aceita o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, que proíbe o uso da camisa de Vênus e exerce um controle rígido sobre o comportamento dos seus fiéis.

Além dessas funções de doutrinamento do corpo e da mente, essa instituição é um empreendimento riquíssimo, dona de uma das maiores fortunas do planeta. Possui um banco próprio com reservas bilionárias, tem participação em bolsa de valores e concentra ações de empresas que produzem automóveis de alto padrão. Uma instituição que sustenta o ócio luxuoso de uma casta de dirigentes medievais, do chamado Clero.

Entre seus métodos de arrecadação financeira vemos a venda de objetos bentos, a oferta de serviços de curas e o pedido de doações, não diferindo em nada de outras denominações do mesmo nível, como congregações, igrejas universais, assembleias de Deus etc. E tudo isso isento de imposto, como manda o bom protecionismo do Estado.

O senhor Jorge Mario Bergoglio pode até ter boas intenções; pode desnudar essa “ditadura sutil” do dinheiro e da busca desenfreada pelo consumo que leva à destruição da Natureza; pode criticar a mídia monopolista e as sabotagens políticas das grandes corporações – e fazendo isso ele dá um tapa na cara de uma elite econômica e de seus asseclas imbecis. Mas não podemos nos esquecer que ele ainda representa, com sua indumentária e sua “castíssima santidade”, toda a estrutura da Igreja e suas forças do atraso. É apenas um importante personagem da efetiva estratégia de marketing do Vaticano que busca a todo custo a revitalização de sua marca nesse imenso e concorrido mercado da fé.