“Não sei, sou de exatas”

Foto de Rob Baird

Na escola, as aulas que recebem ênfase são sempre as mesmas: matemática, física, química. São As Exatas: difíceis, complexas, desafiadoras, exigem muito do aluno. De outro lado, estão literatura, história, sociologia, gramática, filosofia, entre outras menos importantes: as humanas, de fácil compreensão, negligenciadas pelos alunos, pela grade curricular e, às vezes, até pelos próprios professores. No meio, a biologia, que praticamente serve para indicar quais alunos têm talento para medicina.

Depois de entrar no curso de humanas (em que dizem que qualquer um entra, porque é fácil), e estudar a origem e evolução das ciências, finalmente entendemos porque nossas matérias preferidas da escola são tão subestimadas. O positivismo científico, que orientou a produção intelectual dos dois séculos passados, aliada ao produtivismo imposto ao sistema de ensino brasileiro, ensinou gerações que o que importa mesmo são as exatas. São elas que constroem as grandes estradas e os prédios, que fazem as grandes descobertas, que produzem coisas úteis. Por outro lado, o que faz de prático um historiador ou um sociólogo?

Impregnados dessa visão, não nos incomoda repetir a piada que diz “não sei, sou de humanas”. Não temos vergonha alguma de admitir nossa dificuldade com números, já que dedicamos nosso tempo a estudar algo totalmente diferente. Por outro lado, nunca escutei alguém dizer “não sei, sou de exatas”, mesmo em assuntos que não interessem nem de longe a um estudante do meio.

Agora, cabe a correção: diferente do que nos fazem crer na escola, as ciências humanas e sociais não são menos importantes do que as demais. Ao meu ver, não é possível escalonar as áreas do conhecimento em graus de importância, e isso não autoriza ninguém negar a relevância de qualquer uma. Nas humanas e sociais, buscamos, de modo geral, compreender nosso passado, os modos de organização da sociedade, os ordenamentos, os impactos das decisões políticas, a origem dos problemas que tanto incomodam atualmente – e nada disso é fácil. É diferente de uma grande obra de engenharia, mas jamais menos importante.