Saudando a mandioca

Foto de Roberto Stuckert Filho.

Uma das coisas que mais me irritam nesta vida é a ignorância arrogante; arrisco dizer que é, aliás, a coisa que mais me incomoda no comportamento humano. Isto porque o traço central dessa característica em algumas criaturas é a crítica infundada (e a crítica é possivelmente o que me há de mais caro). O espírito crítico desenvolve o pensamento, a reflexão, e, consequentemente, o desagrilhoamento do ser pensante das amarras de um status quo que depende da mediocridade, senão da imbecilidade. Por isso, para ser crítico é imprescindível conhecer aquilo que se critica, o que importa, obrigatoriamente, estudo e dedicação. O que quero dizer, trocando em miúdos, é: quer criticar? Vai estudar!

Temos visto engrossar, assombrosamente, nestes tempos de redes sociais, a fileira de críticos virtuais e juízes da web — pessoas que se arrogam o direito de condenar outras pessoas (daí a ‘arrogância’), mas que, entretanto, não possuem envergadura intelectual para proferir nenhum tipo de julgamento. Tornou-se comezinho, por exemplo, vermos qualquer criatura tecendo opiniões jurídicas por aí sem que nunca tenha passado sequer na porta de uma faculdade de Direito. Claro que escolhi este exemplo pelas tantas vezes que me senti aviltada como jurista e pesquisadora por opiniões bizarras oriundas da ignorância que insistem em “debater” conosco, mas tal fenômeno atinge os mais diversos assuntos. E foi justamente a ignorância arrogante que achou de zombar e ridicularizar um discurso da Presidenta desta República, no qual a mandioca foi saudada por nossa chefe do Executivo. Isso mesmo! Dilma disse, com todas as letras: “Eu tô saudando a Mandioca!”, em discurso proferido durante cerimônia de lançamento dos Primeiros Jogos Mundiais Indígenas. Importante ressaltar aqui que absolutamente nenhum veículo da imprensa destacou a importância da criação de tal evento, com essa magnitude, para a valorização e preservação das culturas dos povos tradicionais, através de uma integração muito benéfica, em múltiplos sentidos. Não. O que se viu por todos os lados foi zombaria e remoque. Chamaram o discurso de “piradão”, “maluco”, “ridículo”, “patético”, e por aí vai… Além disso, fizeram um “remix”, criando uma “música” chacota, que muitos tolos replicaram nas redes sociais.

Certamente, parto da premissa de que quem partilha desta opinião não tem nenhum interesse pelas causas dos povos tradicionais, ou, talvez, seja até antagonista delas. No entanto, mais importante até do que isso, para mim, é ressaltar a ignorância em que se assenta esse tipo de “crítica”. Quando Darcy Ribeiro, em sua obra maior, destacou a importância da contribuição da “Matriz Tupi” para a formação cultural do Brasil, um aspecto que sempre me chamou a atenção foi a inteligência milenar desses povos, transmitida de geração em geração, especialmente, no que concerne ao conhecimento da natureza. Ao ocupar todo o território continental, em migrações constantes, mapearam completamente toda a geografia, nomeando cada curso d´água, cada relevo, cada região. Sempre conheceram toda a fauna, espécimes que a ciência ocidental ainda não catalogou, nomearam todos os bichos e, desde sempre, respeitam sua função no ecossistema muito antes da racionalidade moderna conceber este conceito. Conheciam absolutamente toda a flora, e sempre souberam a utilidade de cada planta, seus benefícios, seus perigos, e seu tempo. Imaginem o que é isso: conhecer toda a fauna e toda a flora deste imenso território, repleto de vida pulsante. Nenhum pesquisador de academia jamais chegará perto disso. As populações tradicionais domesticaram inúmeros espécimes de plantas selvagens, tornando-as agricultáveis — o que depende de muita tecnologia agrícola, de muita inteligência. E, sem dúvidas, de todos esses vegetais, a mandioca se destacou como a mais importante entre as tribos de nossa terra.  A mandioca, como ocorre com todos os demais carboidratos, é realmente responsável pelo avanço da civilização. Como disse a Presidenta Dilma, não fossem a mandioca, a batata, o milho e o trigo cultivados e beneficiados pela humanidade, a civilização jamais teria avançado, pois nossa espécie não teria sobrevivido. Graças ao carboidrato e à proteína nos tornamos mesmo sapiens, e Dilma destacou, inclusive, o machismo atrelado à designação de todos os seres humanos como gênero homo (homo sapiens, em latim, quer dizer HOMEM sábio). Qualquer estudioso de gênero, mesmo incipiente, conhece a vinculação da cultura patriarcal ao léxico, e entende a importância lexical, social e política de Dilma dizer “mulher sapiens“. Porém, os ignorantes arrogantes acharam isso também ridículo. Ocorre que tal debate demanda muito estudo, o que não é o caso desses críticos. A mesma imbecilidade alimentou sua zombaria sobre a mandioca. Pelo visto, não sabem que devemos mesmo a nossa existência à domesticação dos vegetais ricos em carboidratos. E, mais importante que isso, que devemos gratidão aos povos ancestrais que desenvolveram seu cultivo e beneficiamento. Cada um desses vegetais foi mesmo a base alimentar de um povo mundo afora, antes das transações comerciais globais. E nossa mandioca (assim como o milho) merece sim ser um ícone desta terra, do povo que a habitava antes das invasões ibéricas, e que tem sido historicamente destruído e violentado, mas que, no entanto, nos presenteou com tantas belezas e riquezas, entre as quais, a mandioca. Não reconhecer sentido num discurso que associa carboidratos ao avanço da humanidade é de tamanha burrice, que minha mente reluta em se conformar; e não reconhecer a importância da mandioca associada a essas populações a quem tanto devemos é perversa ignorância mesmo. Obviamente, são questões indissociáveis e não foi à toa que a saudação à mandioca foi mote num discurso em tal evento, ora. Se você não entendeu isso, bem, já sabe… Ou não? Por fim, além desse aspecto fundamental da valorização dos povos tradicionais para o avanço da humanidade (que Dilma também destacou através da bola criada pelos aborígenes), há o aspecto econômico, muito importante no cenário do capitalismo global. O mercado de commodities, especialmente alimentares, é o que menos sofre impactos das flutuações de um capitalismo que tende a ser mais financeiro/especulativo do que produtivo e gera tantas crises econômicas. Ademais, as commodities (agrícolas) ainda são nosso principal produto de exportação, responsáveis por cerca de 23% de todo o nosso PIB. Assim, quando a Presidenta Dilma disse pretender conjugar a mandioca com o milho, dizia que vai trabalhar para que aquela se projete no mercado global, para se equiparar a este último e à soja, dado seu imenso potencial em derivados, para trazer mais capital para o país, porque a mandioca é coisa nossa. O governo dos coxinho-idolatrados EUA fornecem insumos financeiros aos belts agrícolas, especialmente, aos corn belts, devido à importância deste carboidrato para sua economia, mas acredito que quem achou risível a fala de Dilma não saiba disso, ou pior: não consiga cognitivamente associar isso à importância da mandioca. Você pode estar habituadx com sua mandioca frita de boteco e pensar que quem só conhece as “french fries” não sabe o que está perdendo; mas, além disso, é possível criar inúmeros produtos a partir da mandioca, desde a popular tapioca entre adeptos de dietas saudáveis, até novas modalidades de biocombustível.  Por isso, incentivar a produção desse vegetal é buscar dividendos para o Brasil. Neste ponto, gostaria de ressaltar que os maiores replicadores da ridicularização da saudação presidencial à mandioca são de direita, portanto, entusiastas do sistema econômico capitalista. Ainda assim, acharam “doidão” um discurso que tem por escopo incrementar o mercado global, e trazer mais cifras à nossa economia, nos moldes mais cristalinos do capitalismo. Então, repito: crítica é algo que só pode ser feito com inteligência. Estupidez é somente estupidez. Não é engraçado rir de algo que você não entendeu. E só riu daquele discurso quem não entendeu nada de seu teor, nem antropológico, nem político, nem econômico. Por isso, esse chasco que circulou nas redes é de uma burrice tão avassaladora, mas tão generalizada, que precisa ser denunciada. Por essa razão, usamos nossa coluna para fazer um apelo muito sentido. Aos ignorantes, violentos e machistas, que querem calar a boca da Presidenta, é preciso dizer: vão estudar! Àquelxs que riram de seu discurso, replicaram musiquinhas, zombaram de sua figura, é preciso dizer: vão estudar! Sobretudo, a quem se disse indignadx pela falta de sentido e grande bobagem do discurso de Dilma, é preciso dizer: vá, urgentemente, estudar, porque ignorante não critica! Quem pretende ser crítico precisa estudar.  Acho que nunca me cansarei de repetir isso. Podem até pedir uma indicação bibliográfica e comecem hoje mesmo. Já eu, que não fugi da escola, estudei história, antropologia, botânica, economia, entre tantas outras coisas, e me considero altamente crítica, muito adepta da filosofia e da teoria crítica, inclusive, entendi o discurso de Dilma. Por isso, fazendo-lhe coro, gritarei por todos os cantos: Estou saudando a mandioca!