Eu Chapo com essa mídia: a narrativa da fuga de El Chapo.

Foto de Day Donaldson

Nos últimos dias vimos mais um exemplo de como a grande mídia e seus vassalos menores costumam proceder na construção da imagem de um mito. O mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán, narcotraficante responsável por abastecer boa parte dos narizes na América do Norte, fugiu de um presídio de segurança máxima pela segunda vez e já detém o status de “homem mais procurado do mundo”.

Usando expressões de efeito como “uma das fugas mais ousadas da história”, alguns cartéis de televisão pelo mundo afora disseram que El Chapo superou em dezenas de vezes a genialidade e a fortuna de outros mafiosos que brilharam nas telas de Hollywood. Aliás, essa mesma indústria do ramo cultural anunciou que fará um filme sobre a carreira empresarial, digo, sobre os negócios ilícitos de Guzmán – o público se delicia com essas temáticas.

Algumas matérias jornalísticas chegam a chamar El Chapo de empreendedor que em outras circunstâncias poderia muito bem ser o diretor executivo, ou CEO (Chief Executive Officer), como os americanos gostam de dizer, de uma grande empresa multinacional. E com isso traçam sua trajetória de vida pelos artifícios da imagem do herói liberal, por meio de frases do gênero: “ele nasceu de família pobre e hoje tem um grande império”; “o baixinho de um metro e sessenta que comanda um exército de verdadeiros soldados”; “o ídolo de um povo” e “fiel de Jesus Malverde, o santo protetor dos traficantes”…

Não tenho interesse em entrar no mérito das questões de “criatividade” ou de “brilhantismo” desse senhor Joaquín Guzmán.  Isso contribui para desviar o foco do que mais importa: Al Capone só existiu por causa da proibição da venda de bebidas alcoólicas nos EUA nas décadas de 1920 e 1930 (Lei Seca). El Chapo só existe por causa da chamada “guerra ao tráfico”. Ironias à parte, ele não passa de um pai de família de sessenta anos que produz e comercializa mercadorias entorpecentes em larga escala, como muitas similares que compramos em supermercados e drogarias, com a proteção de forças políticas transnacionais e de armas compradas livremente.

A quem de fato interessa esse personagem senão a um mercado mundial muito maior que se sustenta sob rótulos oficiais como “Razões de Estado” e “Segurança Internacional”? A rede de interesses econômicos que se forma por trás de um mito fabricado como El Chapo é um lamaçal muito mais denso do que essa novela pitoresca pintada pelos jornais.

A título de ilustração: a voz da mídia julgadora que persegue sem escrúpulos os traficantes aqui no Brasil; que faz de tudo para criar o consenso da população pela redução da maioridade penal e encher mais ainda as cadeias com aviõezinhos do tráfico é a mesma voz que faz apologia de criminosos como esses que aparecem entre os homens mais ricos da revista Forbes.