Sobre a fluidez metafísica do mundo em função do que eu sinto

Foto de Cristian Iohan Ştefănescu

Como pode? Eu me pergunto, como pode o mundo variar?
É claro que Einstein já provou a Teoria da Relatividade há tempos, que demonstra a elasticidade das variáveis do Universo em função do observador, também é claro que o termo éter, para fins científicos já está obsoleto. No entanto, dependendo da carga sentimental que o dia-a-dia despeja sobre mim, sinto o mundo variar grosseiramente em função destas duas coisas!

O simples término de um namoro, por exemplo, transmutou meu quarto em um calabouço, onde as memórias frias, vestidas de algozes, me observavam com seus machados de ferro cru na mão, de prontidão. Até as coisas mais inofensivas, como fotos, eram transmutadas em adagas surdas, disparadas sequencialmente contra mim ao longo do trajeto feito entre os raios de luz refletidos e meus olhos. Nada escapou dessas mudanças na calada da vida.

Eu poderia jurar que aquele era o mesmo quarto onde algumas noites de amores e risadas estavam andando para lá e para cá, a esmo com suas cervejas, mas não era. Torno a dizer: para a ciência o éter está morto e a Relatividade é válida, mas para mim as duas coisas andavam juntas! Resolvi apelar para o empirismo: chamei meu pai para ver o quarto e ele me disse que parecia normal. Minha mãe e minha irmã disseram o mesmo, inclusive com o relógio na mão pra medir o tempo. Ai suspeitei que o louco era eu, ou, assumindo que há tal ciência sentimental: o éter deles é que continuava igual, o meu não.

Era assustador o poder que esse éter misturado com a Relatividade ganhava. O tempo custava a passar nos lugares onde as memórias se enterravam, como cemitérios ao longo da cidade. A pizzaria na Alameda Campinas, por exemplo, servia agora apenas pizzas amargas (é, devo dizer, o éter como instrumento físico altera toda a realidade, o que implica mudanças em todos os sentidos). Sem contar o metrô que costumávamos pegar juntos, que passou a andar na velocidade média de 12 km/h. Ah, e tem também o céu da Avenida Paulista, que estranhamente se mostrava sempre cinza pra mim.

éter é perigoso. Altera cada objeto, e consequentemente cada percepção, por mais leve ou pesada que seja. Sua tristeza, sua felicidade ou o que quer que você sinta transmuta essa massa, esse fogo brilhante que ocupa os vácuos da nossa cabeça e dá forma na argila dos céus. Tome cuidado com o que você carrega dentro de cada sentimento, de cada sensação. O mundo vai se alterar pra você, vai ficar do jeito que você quer, assim como as diferenças de pressão dentro e fora do nosso corpo, e a concentração salina entre dois ensaios químicos depois da osmose, o mundo finalmente se adapta ao que você sente. Parece que a linguagem misteriosa desse éter é traduzida como: “Sinta tudo que você quiser, e nós lhe traremos tudo que você sentir, gostando ou não, não poderei dizer que sinto muito, tanto quanto você.”