Teoria do Tanque de Guerra

Foto de Des Morris

Em uma região isolada e de difícil acesso da Floresta Amazônica, habitava uma tribo indígena que nunca tivera contato com o homem branco. Não falavam português, não conheciam nossas leis e sequer entendiam o conceito de Estado, muito embora soubessem da existência de conquistadores malignos ao sul de suas terras. Tudo nessa tribo se resolvia em grupo, com grandes reuniões para definir quem faz o que, como e quando. Eles tinham seus problemas e divergências, mas tudo funcionava mais ou menos em harmonia.

Até que, um dia, um tanque de guerra de 30 toneladas adentrou a floresta.

Os indígenas jamais haviam visto algo parecido com aquilo e decidiram fazer uma grande reunião com todos os habitantes da tribo para decidir o que fazer. O cacique, grande ancião e veterano de várias lutas, profetizou: “Todas as nossas grandes conquistas foram obtidas no campo de batalha, com nossos arcos e flechas, nossas lanças e nossos tacapes. Nossas terras, nossos tesouros, nosso alimento, tudo foi conquistado quando aprendemos a usar nossa força para subjugar os inimigos. Agora não será diferente!”. Não havia consenso entre os guerreiros mais velhos de que a estratégia funcionaria, mas concordaram. Os guerreiros jovens, por sua vez, foram hipnotizados pela palavra do cacique e se prontificaram a lançarem-se à batalha.

Os indígenas então lançaram-se à batalha, mas nada ocorreu como esperavam. As lanças e flechas lançadas sequer riscavam a pintura do tanque, que não esboçava reação diante dos ataques. Foi só quando os guerreiros mais jovens e inexperientes decidiram se aproximar brandindo seus pesados porretes que veio a resposta: rajadas de metralhadora eliminavam qualquer um que se aproximasse do veículo. Reconhecendo a ameaça, o tanque passou a disparar seu canhão principal também, causando grandes explosões que estouraram os tímpanos de muitos guerreiros, queimaram mais tantos e despedaçaram alguns. Outros morreram esmagados por gigantes árvores arrancadas da terra, e o mais novo dos guerreiros, congelado de pânico diante do inimigo, foi atropelado.

Os guerreiros recuaram, reagrupando-se com as mulheres, crianças e idosos na parte mais alta de seu território. De lá, podiam ver o rastro de destruição causado pelo veículo blindado. Decidiram fazer uma nova reunião para decidir como impedir que aquele demônio que cuspia relâmpagos destruísse o que restava da tribo. Várias foram as propostas: cavar uma vala para fazer tombar o tanque de guerra; derrubar as grandes árvores anciãs sobre o inimigo; iniciar um grande incêndio e cercar o invasor com as chamas. Falaram até em tentar dialogar com a estranha criatura. Todas essas propostas, nunca antes empregadas, assustaram o cacique, que defendeu novamente os métodos tradicionais de combate.“Todas as nossas conquistas se fizeram com os instrumentos de combate que temos, não temos escolha, precisamos simplesmente nos unir! Nos mobilizar!”. E a tribo acatou, embora grande parte dos guerreiros mais velhos tivesse decidido sentar e esperar a morte, enquanto alguns fugiram.

O cacique liderou o novo ataque pela manhã, à frente das mulheres, crianças, velhos e os poucos feridos que ainda conseguiam empunhar uma arma. Durante horas eles circundaram o tanque, que atirava indiscriminadamente, tentando acertar os indígenas, que moviam-se com rapidez. Até que ele parou de atirar. E uma fumaça negra saía do escapamento. Após dois dias de combate, já não lhe restava munição (sequer esperava entrar em combate) e o combustível estava no fim (adentrara fundo demais na mata). O piloto do tanque decidiu, então, fazer o veículo dar meia volta e retirar-se da região, de volta à sua base.

Sob um belo pôr do sol, o que sobrara da tribo assistiu à fuga daquele destemido oponente, acompanhada dos guerreiros que não participaram da luta, atônitos. O cacique, que sangrava por todo o corpo, inflou o peito de orgulho diante daquela cena épica. “Nós vencemos, uma vez mais! Os índios, unidos, jamais serão vencidos! Nosso método de luta é legítimo, eficaz e racional!”. E todos choraram, de tristeza pelos mortos, de alegria pelos vivos, de orgulho pela vitória.

E alguns, bem poucos, de certeza de que o tanque voltaria com vários amigos.