Impeachment e Futebol

Foto: Juliana Baratojo

O futebol diz muito sobre como se constrói a visão de mundo do brasileiro. Isso é um fato importante da nossa cultura política.

Qualquer pessoa que acompanha minimamente os noticiários dos jornais sabe que vira e mexe um técnico de futebol é demitido. Mesmo aqueles que não se importam nem 1% com esportes, todos acabam ouvindo uma notícia do tipo: “mais um técnico caiu”.

No Brasileirão (Campeonato Brasileiro da série A, o que é transmitido de acordo com os horários da Globo), vimos cair em média um técnico por rodada no ano passado. Em 2015 já são mais de dez – e o campeonato só termina em dezembro.

O time não pode perder meia dúzia de partidas e a torcida já pede a cabeça do treinador. Num dia estão morrendo de amores pelo Luxemburgo, pelo Muricy ou pelo Felipão; no outro, comparam eles com os filhos das profissionais do sexo.

Esse “troca-troca” é pauta para muitos questionamentos dos torcedores sobre diversos assuntos, os quais levam quase sempre a uma mesma conclusão filosófica: “se o time vai mal, a culpa é do técnico; logo, se tirarmos ele de lá, as coisas melhoram”.

Pode até parecer simples demais tal raciocínio, mas é só trocar o raio do treinador de um time que está perdendo para ver brotar a esperança na cara da sua torcida.

Para parte da população, é assim que a realidade funciona. E, como os indivíduos não passam metade do seu tempo sendo torcedores e outra metade sendo cidadãos, isso tem consequências importantes na vida política de uma sociedade: “se o país não vai bem, a culpa só pode ser do presidente; logo, basta tirá-lo de lá e tudo será resolvido”.

Portanto, faz muito sentido ir a manifestações e pedir o impeachment da Presidenta Dilma.

E o que, basicamente, uma torcida sabe fazer? Dentre outras coisas, vestir uniformes e cantar musiquinhas ou hinos. É por isso que vemos nesses protestos pró-golpe, ou melhor, próimpeachment, a maioria das pessoas vestindo a camisa da seleção brasileira, cantando sempre em coro o hino nacional intercalado com um “Dilma, pede pra sair!”, um “Fora Dilma e leve o PT junto!”, ou mesmo um “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” etc.

Vale lembrar que os torcedores-manifestantes inovaram no quesito de acompanhamento musical: agora usam panelas como instrumento de percussão.

Apesar de todas essas semelhanças antropológicas, há uma diferença fundamental quando relacionamos impeachment e futebol: em vez de xingar o árbitro, como fazem as torcidas nos jogos, os torcedores-manifestantes consideram os juízes seus verdadeiros ídolos e tomam o poder judiciário como a salvação para o time, quer dizer, a salvação para o Brasil…