A-moral de Moro ou Curitiba, a nova capital do Brasil

Foto de Augusto Dauster/Ajufe

Curitiba é a nova capital do Brasil! Não, não, muito mais que isso. Já conhecida por ser uma cidade referência em matéria de limpeza e planejamento urbano, Curitiba, agora, virou a capital da honestidade e da justiça. Claro que há muito tempo a bela cidade aguardava uma chance de provar seu valor, para muito além de um rostinho bonito, um clima ameno e um corpinho de primeiro mundo. Todo esse investimento não terá sido à toa.

Em frente ao Grande Templo Sagrado (vulgo prédio da Justiça Federal) da moralidade conduzido pelo Sumo Sacerdote da Justiça, Sérgio Moro, dezenas de repórteres abobalhados se amontoam para transmitir, em tempo real, o grande ritual da expiação. Os olhos do país estão voltados para lá. Do país não, do MUNDO! Curitiba é a nova terra Santa, para onde peregrinam os inúmeros fiéis da hipocrisia política midiática, o Calvário onde se condenam e se executam os criminosos e ladrões da pátria. A liturgia é acompanhada passo a passo pelos noticiários. No califado tucano do sul, Moro é quase uma entidade, um deus, como, aliás, já costumeiramente se consideram os juízes. Mas no caso dele, é  um escolhido, auto-atribuído do poder supremo de expurgar a corrupção e a iniquidade de nossa grande nação. Já que a religião tem dado o tom da (in)consciência nessa desesperançada terra, nada mais oportuno (e triste) do que evocar a mitologia para explicar a justiça ou a bíblia para justificar um paradigma ultrapassado de justiça. E o galo nunca cantou tanto como tem cantado dentro do palácio do Sacerdote do Templo. Galos e bodes expiatórios estão na moda, todos desesperados para salvarem suas peles. Não se trata de fazer ninguém de vítima, não há vítimas nem inocentes por ali, embora estejamos cercados mesmo por lobos, muitos deles, inclusive, vestidos de cordeiro ou de toga. Seja como for, o fato é que a traição nunca esteve tão em alta, celebrada a cada delação premiada, comemorada com o canto de um coral de galhos velhos da república. Julgamentos confusos, processos escusos, interrogatórios obscuros, condenações e sentenças na calada da noite ou no alvorecer do dia, enquanto uma legião de “Barrabases”, impunes e intocáveis, andam à solta, à espreita de um golpe ou de uma rebelião.

Com a colaboração litúrgica da sagrada mídia, a fiel SAGRADA MÍDIA DA FAMÍLIA, a celebração virou um verdadeiro espetáculo de catarse para as massas. É o batismo da pátria nas águas puras do Jordão da moralidade. É um espetáculo grandioso, também chamado de Operação Lava Jato, aliás, penso eu, um nome prosaico demais para algo tão grandioso. Mas não se pode esperar criatividade de rituais dessa natureza. Com a vassoura em uma mão e o martelo na outra, Moro varre para sempre a sujeira de nossa pátria, mandando para a jaula os grandes párias do Brasil, postos nos calabouços de seu castelo privado, enquanto faz da justiça a grande boba-da-corte, entretendo os convidados em seus salões e, lá fora, uma platéia de alienados e ignorantes, que ainda por cima, a cada noticiário porco e transmissão imbecil acreditam estar aprendendo lições de Processo Penal. Nos cafés e bares agora todos são peritos em matéria de direito, repetindo como papagaios ou tucanos, brocardos jurídicos e termos processuais como um verdadeiro, manso e servil coro de aleleuia. Para Moro, a justiça e a lei são  atributos e divertimentos pessoais a serviço de seus arroubos de mandos e desmandos. Sua autoridade é absoluta, incontestável, é FEDERAL! Isso sem contar com a colaboração imprescindível de sua guarda pessoal, guardiões do templo, também chamada de PF.

A cada nova prisão, a população vibra, celebra, espuma, vocifera e finge hipocritamente ser limpa de uma sujeira, que aliás, é de todos e qualquer um. Empresários limpos que atirem a primeira pedra! Estamos todos com os pés e sandálias sujas da mesma areia de corrupção e sujeira, mas evitamos o desconforto de olhar para nosso próprio dedão. Aliás, parece até ironia ou piada de mal gosto falar de honestidade e pregar probidade na terra de Beto Richa, cercado de fariseus, oportunistas e bandidos baratos. Mas seja como for, são eles os escolhidos, e todo povo eleito ganha, junto com a unção dos deuses, o direito, também divino, de ser hipócrita e canalha. E endossando o coro da canalhice, canais de televisão transmitem o passo a passo das investigações, delações e uma série de informações desencontradas, cifradas e simbólicas que mais se parecem com profecias oraculares, interpretadas pela sibila délfica de Curitiba, Sérgio Moro. No templo da justiça, delações tem o peso e o crédito de Oráculo dos Deuses, cujos vaticínios, verdades e profecias são interpretadas pela pitonisa cega de Thémis, com sua toga, seus autoritarismo e sua “juizite” patológica. Essa é a moral de Moro.

Na ridícula e falsa simulação de moralidade e justiça, Moro não se importa em sacrificar a política nos altares sujos de Thémis. Entre a arte humana e a intervenção divina, preferimos soluções do alto. E o preço de tal sacrifício pode ser a própria democracia, sobretudo para uma população que nunca soube de fato o verdadeiro significado e valor de termos como ágora, pólis e tampouco, democracia. Mas quem se importa com a democracia? Talvez ela não seja mais necessária. O tempo agora é dos deuses e dos mitos. Com seu engodo barato, Moro pretende não apenas mistificar a si e seus aliados como também usar disso um álibi para comprar e restaurar uma credibilidade no judiciário, cuja supremacia, infalibilidade e inviolabilidade ocultam talvez o mais sujo e pérfido dos três poderes. É por meio da “justiça”, da lei, do judiciário e de uma investigação criminal que se fabrica, administra a manipula uma crise política de dimensões catastróficas. “Para meus amigos, tudo, para meus inimigos, a lei.”

Boatos correm que Moro agora vai lançar, ao mesmo tempo,  a candidatura de Curitiba para capital do Brasil e sede do Tribunal Penal Internacional, afinal, que moral tem um país como a Holanda para uma missão dessa grandeza? Depois dos escândalos da FIFA, Moro inclusive quer lançar a cidade como sede da instituição e hóspede perpétua da copa. Pena que Moro não tenha jurisdição sobre as reservas ecológicas de proteção ambiental a tucanos e demais aves. Ali Babá e os 45 ladrões, saíram de vez de seu covil e agora andam à solta pelas areias desse deserto político em que nos metemos. E sabem, como ninguém como sobreviver e como fazer uso das vantagens desse cenário hostil. Só não são muito bons em lidar e gerir recursos hídricos.

Mas eu, que penso pequeno e não tenho autoridade  federal, queria mesmo era ser dono de um lava-jato na capital paranaense. Acho que seria um marketing e tanto… em nenhum lugar da terra se limpa tão bem a sujeira como em Curitiba.