A metade marginal da Índia

Credito: Nevil Zaveri

Apesar da Constituição indiana proibir qualquer tipo de discriminação que tenha como base o gênero de uma pessoa, as mulheres seguem socialmente marginalizadas no país. Representando quase 50% da população, as mulheres indianas ainda enfrentam diversos desafios culturais que impedem seu avanço social, entre eles, as barreiras no acesso à educação e os frequentes casos de casamentos infantis.

As discriminações podem começar antes mesmo do nascimento, uma vez que existem altos índices de abortos seletivos envolvendo fetos femininos, tanto pela pressão da família do marido em desejar um filho homem quanto pela necessidade de se pagar um dote para o casamento de uma menina. Isso não apenas retrata a visão deturpada de que um garoto é melhor do que uma garota, mas também mostra o estado de vulnerabilidade que as grávidas vivenciam, sofrendo agressões e sendo forçadas a realizar abortos sucessivos até engravidarem de um menino.

Entre outras formas de violência contra as mulheres, a Índia abriga um caso de estupro a cada trinta minutos, como o caso de estupro coletivo ocorrido em 2012, onde a jovem de 23 anos foi atacada por seis homens em um ônibus e faleceu por conta das sequelas. Além disso, a culpabilização da vítima ainda é recorrente no país e, em muitos casos, elas são assassinadas por seus próprios familiares pelo fato da agressão sexual representar uma desonra para a comunidade.

No caso das mulheres muçulmanas há ainda outra barreira quando se trata de divórcio, pois o pedido dentro da religião não perpassa nenhum aspecto legal, sendo necessário que o homem apenas repita três vezes a palavra “Talaq” (e não precisa nem ser pessoalmente, pode ser via Skype ou até mesmo por SMS). Trata-se de um privilégio exclusivo do marido, sobre o qual as mulheres não possuem nenhum poder de decisão ou ação.

Nesse sentido, apesar dos esforços do governo em promover maior inclusão das mulheres na sociedade indiana, como a criação da Missão Nacional para o Empoderamento das Mulheres em 2010, ainda existe uma grande lacuna a ser superada. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apenas 26,6% das mulheres indianas possuem ensino secundário e representam apenas 28,8% da participação no mercado de trabalho (contra 50,4% de homens escolarizados e 80,9% de homens com empregos).

Entretanto, imaginar que a marginalização das mulheres é algo restrito às sociedades distantes, ao “Outro”, é sofrer de uma cegueira seletiva aguda e danosa. Mesmo no século XXI, mulheres e garotas seguem tendo seus direitos cerceados e sofrendo discriminações em todos os países, mesmo naquelas sociedades que a mídia tão veementemente denomina “desenvolvidas”. No Brasil, por exemplo, a cada 15 segundos uma mulher é agredida. Ou seja, cerca de 20 mulheres acabaram de sofrer agressões físicas, psicológicas ou morais, apenas enquanto você terminava de ler esse post.

A marginalização feminina é uma constante e, por isso, a luta é diária. Aqui no Brasil, no México, na França, na Índia, em todo lugar.