Celas e humanos, células e um ano: a enchente do tempo certo

Foto de Wolfgang (flickr.com/photos/guru10/)

– A gente precisa ligar pra ela – brandou o sr. Taor enquanto palpitava e batia as mãos na mesa.

– Não, nós não podemos – respondeu o sr. Cortês.

– Mas o Departamento de Relações Pessoais está inundando! – Taor parecia irritado. Seu rosto levemente arredondado estava rubro em função da recente negativa.

– Não adianta! Temos que fazer o que é certo. E neste caso, infelizmente, o Departamento não tem escapatória – o sr. Cortês respondia com a voz firme, com precisão nas palavras e sem desviar os olhos, como um capitão ao ver seus homens no campo de batalha.

– Mas senhor, se nós não resolvermos isso agora talvez nunca mais consigamos recuperar os documentos perdidos e os processos em andamento! É um caso de vida ou morte, precisamos ligar pra ela – as últimas palavras já marcavam o ritmo de uma voz sem fôlego pra continuar. O fato de que aqueles dois homens conversavam em uma sala quente e úmida parecia piorar o stress da situação – Isso sem contar as vidas perdidas Senhor.

– Eu não vou autorizar o uso do telefone, portanto volte já para o seu posto. Nós seguiremos com o plano inicial – o Sr. Taor deixou o tronco cair levemente pra frente ao ouvir isso, num gesto típico de quem é derrotado por um muro alto demais para ser escalado.

– Sr. Cortês – disse com a voz trêmula – há vinte e dois trabalhadores presos nove andares abaixo de nós neste exato momento, e se nós não agirmos AGORA temo que não será possível salvá-los. Eles estão lá porque o senhor MANDOU eles continuarem o serviço, mesmo quando houve os primeiros vazamentos. Não é justo, e eu não vou sair daqui enquanto não puder usar o telefone. Nós PRE-CI-SA-MOS ligar para ela.

O sr. Cortês da Fonte, do alto de seus 1,90 metros e 45 anos, colocou a mão no queixo depois inspirou e expirou com força. Fitava o chão vermelho, que se mexia sob seus pés com leve encantamento. Então, como quem pensa com muito esforço, olhou para o Sr. Taor, com a calma e o fulgor de quem tenta adivinhar as cartas que o oponente esconde antes do All Win. O Sr. Taor, com seus 1,75m e 19 anos, parecia cansado demais para reagir contra esse tipo de olhar, como alguém que há tempos assumia riscos e responsabilidades pesadas demais para sua alçada. Apesar de seus grandes músculos, ele era muito sensível.

– Veja, eu não tenho escolha. Já passei por isso antes. De acordo com o nosso banco de dados a possibilidade de recuperação é mínima, e eu garanto, com a minha experiência, que nós não podemos fazer mais nada. Devo lembrar também que quem provocou as rachaduras foram vocês mesmos, como forma de protesto em face das decisões recentes do Tribunal Administrativo. Eu mandei vocês continuarem trabalhando pois só assim as coisas se acalmariam lá nas instâncias superiores e eu poderia ganhar tempo para vocês trabalharem melhor a ideia. A pressa de vocês, passando por cima de meus planos, foi o que destruiu seu departamento, quando decidiram depredar novamente o prédio. – era incrível como ele soava exatamente como um professor de matemática, sem mudar o temperamento nem a feição enquanto proferia coisas tão sérias.

– Senhor, com todo respeito, eu NÃO vou deixar meus homens sozinhos. Nossa única salvação é ligar para a pessoa que pode nos salvar, mas você sequer nos deu essa chance. Me resta, por fim, apenas me despedir e agradecer a chance única de trabalhar ao seu lado, porque agora vou me juntar aos meus homens: morreremos todos juntos – o fatalismo da frase parecia agradar Taor, principalmente porque era cedo demais para utilizá-la com seriedade.

– Isso seria tão estúpido quanto usar o telefone – era como uma provocação astuta.

– Isso seria melhor do que perder vidas, melhor do que perder almas de forma definitiva – o sr. Taor estava chorando ao terminar de falar.

– Taor, com todo respeito, você ainda é uma criança neste meio – a voz do sr. Cortês era macia, mas parecia ferver cada sílaba – você nunca passou por crises como essa antes. Eu já passei, e estou aqui pra te dizer que a vida segue, nós continuamos e cá estou eu, vivo, para te contar que essa dor da perda vai passar. O alagamento foi provocado porque a sala onde vocês trabalham, no Departamento de Relações Pessoais, fica submersa em um oceano. Quando o Tribunal Administrativo negou o repasse para a reforma da filial japonesa, vocês tiveram a “brilhante” ideia de arremessar os galões químicos contra as paredes da própria sala! Então, antes mesmo que eu conseguisse mais tempo para negociar, vocês vão lá hoje e me jogam todo o resto do estoque! O rombo que abriu na parede é culpa exclusiva de vocês, que têm mais músculos do que cérebro. Sinto muito, não vou autorizar a ligação.

– Mas… senhor… – Taor não conseguia mais conter as lágrimas e levou as mãos ao rosto, mas era enfeite: chorou a ponto de soluçar. Pensou em tudo que aqueles humildes trabalhadores tinham feito. No esforço deles em missões pelo mundo, construindo agências e resgatando lugares abandonados, iluminando alguns corações pobres. Pensou em todos com muito carinho, em cada vez que eles tinham que levantar de suas camas e partir até o serviço pesado de cada dia. Não podia se esquecer deles. Para ser sincero Taor não queria se esquecer deles, era o mínimo que eles mereciam, de acordo com seu pensamento um tanto quanto nostálgico. Vez ou outra teve incidentes mais sérios com dois dos trabalhadores, que se rebelaram contra ele e não queriam levar alguns galões para cima, mas Taor não chegava a guardar mágoa ou sentir raiva.

– Se é assim, o que você me sugere Cortês? Qual o meu posto no seu plano? – sua boca estava rachada, mesmo com a sala (e seu rosto) pingando de umidade.

– Sugiro que você se sente aqui comigo… – Cortês puxou uma poltrona, com alguns botões de madeira no centro segurando o couro. Depois foi até o frigobar do Departamento Jurídico e pegou dois copos de Whisky, serviu um primeiro para o sr. Taor e por fim pegou o seu. Sentou-se ao lado dele e ficou em silêncio.

– Sr. Cortês, e agora? – sua voz estava pálida. Era como o desespero do coração personificado.

– Agora, sr. Taor – Cortês falava em um tom que tangenciava o deboche – nós vamos admirar uma boa vista aqui de cima, coisa que lá no seu Deparamento não é possível, então aproveite essa chance. Então, dentro de alguns instantes, todos os Departamentos do edifício Augustus serão tomados por uma violenta onda, que causará enchentes destruidoras. Todos os papéis e processos se perderão e não sobrará nada, nem mesmo os galões químicos. Nem eu nem você seremos os mesmos depois dessa onda. É o que os humanos chamam de Crise.

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Então Taor levou o copo à boca e, antes que o Whisky doze anos pudesse queimar sua garganta, foi jogado de súbito para o fundo da violenta maré azul que subia sem parar. Desceu, desceu, desceu… e só então, prestes a sumir, Taor entendeu porque não poderia mais ligar: porque toda aquela água gelada tinha o mesmo odor que ela – de dor.