Nós vamos pra rua no dia 20?

No último dia 16/08/2015, manifestantes ocuparam as ruas para pedir o impeachment da Presidenta (embora não saibam o que isso significa e também não saibam a correta grafia da palavra inglesa), a volta da Ditadura, revogação da Constituição Federal, Intervenção Militar, apoio ao Juiz Moro, fim do Bolsa Família, livre Sonegação Fiscal, banimento dos gays na Sibéria, morte a qualquer pessoa que vista vermelho, eleição de Aécio Neves, prisão perpétua de Lula, força a Eduardo Cunha, entre outras pautas… Um rapaz que compareceu ao ato para pedir o fim das chacinas perpetradas pela PM foi expulso da manifestação, já que essa é uma agenda que não combina com o escopo geral, afinal, matar pobre, negro e favelado é uma das reivindicações dos manifestantes, e não motivo de indignação, e a protetora PM é digna apenas de elogios, abraços, beijos e selfies.  Como nas outras manifestações de mesmo teor, o que se viu foi aquela festa em verde e amarelo, com dança, música e muita gente feliz, para apologizar o assassinato de gays, feministas, negros e comunistas. Sangue derramado pelo bem das pessoas de bem.

Trata-se da direita brasileira, que não pode ser confundida com a direita liberal, ou neoliberal. É uma direita dançante, pintada e festiva, que odeia exclusivamente um partido, o PT, e deseja a morte dolorosa daqueles que não se coadunam aos seus valores.  O que essa direita quer, afinal? Impeachment, ditadura, intervenção militar, monarquia, nazismo? Nem eles mesmo sabem… Só sabem que querem ver seu ódio concretizado em sangue… De que forma isso se daria, não sabem articular, pois sua capacidade cognitiva e seu conhecimento de modelos políticos não permite… É muito, mas muito tolo supor que essa manifestação tem alguma relação com as medidas econômicas do governo, e muito superficial acreditar que foram propulsionadas pelos recentes escândalos de corrupção.

Em resposta, setores do movimento sindical, movimentos sociais e partidos governistas conclamam o povo a um ato no próximo dia 20/08.

Levantamentos de institutos de pesquisa mostram que a esmagadora maioria de manifestantes do dia 16 são brancos e de classe média, e que significativa maioria possui formação superior. Portanto, não se trata de um protesto de pessoas pobres, miserabilizadas ou excluídas, e, ainda assim, foi agendado apara o único dia da semana no qual não se trabalha por força da legislação protetora da classe trabalhadora, salvo exceções. De outro lado, o protesto agendado para o dia 20 foi conclamado pela CUT, movimentos sociais de trabalhadores e excluídos, e militantes de partidos ditos de esquerda. A propaganda do dia 20 diz que, quando o povão sai às ruas, a elite recua… Porém, o fatídico 20 é uma quinta-feira, dia em que os trabalhadores e trabalhadoras assalariados, que picam cartão de ponto, não podem se ausentar… Não é curioso que a dita elite agende uma manifestação para um domingo e o povão trabalhador para um dia útil? Alguém da organização dessa próxima marcha poderia me explicar isso? Eu, que dependo do meu trabalho para viver, poderia ter ido no dia 16, mas estou completamente impossibilitada de comparecer no dia 20. Concluo que quem irá nesta quinta será a militância profissional, o que, certamente, diminui o volume de pessoas nas ruas e apequena a marcha do dia 20 em comparação à do dia 16. Então, os números levantados pela isenta PM em uma e outra, e noticiados pela mídia neutra, deixarão aquela impressão, na cabecinha das pessoas na sala de jantar, de que há muito mais gente querendo a saída de Dilma. Será isso apenas circunstancial, burrice histórica ou algo proposital? Pelo menos, desta vez, os governistas marcaram sua passeata para depois dos tarados verde-amarelos, pois, da última vez, apenas fortaleceram o ódio anti-PT e engrossaram o cordão pró-ditadura.

A Presidenta não dá nenhuma declaração oficial sobre os atos, assim como também não se manifestou sobre os recentes escândalos de corrupção envolvendo membros de seu governo e base aliada. Seu último pronunciamento oficial ocorreu há meses, no qual ela não tocou em nenhum desses assuntos e procurou debater questões de gênero, mas suas palavras foram abafadas por algumas pessoas batendo panelas em prédios de luxo nas grandes cidades, que tomaram proporções de um verdadeiro “Triunfo da Vontade”, graças à mídia, neutra. Depois disso, Dilma tentou um pronunciamento oficial veiculado apenas na internet e não na TV aberta, como se as pessoas que bateram panelas não fossem justamente as que têm acesso à internet. Novo panelaço, ampliado, com a adesão da classe média. Por último, o PT levou sua propaganda ao ar para tentar explicar a situação econômica do país ao povo e acalmar os ânimos com o talento dos caríssimos marketeiros. Resultado: panelas e panelas batendo, ou melhor, aplicativos para smartphone que simulam o batuque, para não cansar delicadas mõazinhas, nem estragar belas panelas.

A esquerda que se autoproclama pura e verdadeira diz que o governo Dilma é indefensável, pois adotou um pacote econômico austero aos pobres, com diversas medidas claramente neoliberais, reduziu significativamente gastos com diversas políticas públicas, especialmente, de educação (e adotou como slogan “pátria educadora”), foi pego em “pedaladas fiscais”, e as provas de envolvimento de aliados com o “Petrolão”  não param de surgir, com suspeita de financiamento espúrio de campanha. Isso sem falar em descontentamentos que remontam à primeira gestão, como Belo Monte, recuo no combate à homofobia, negligência à reforma agrária e incentivo ao agronegócio, enriquecimento assombroso dos bancos etc. O governo Dilma, assim como a administração Lula, não avançou em nada na agenda da esquerda e dos movimentos sociais no que diz respeito a pautas que impactam a estrutura perversa do capital e a divisão da sociedade de classes; porém, diferente de seu antecessor, a Presidenta sequer tem capacidade de dialogar com esses setores e apaziguar os descontentamentos. Além de tudo, para quem ainda faz o esforço de digerir um Mensalão em nome dos avanços sociais da era Lula, um Petrolão ficou muito difícil de engolir… Por isso, essa esquerda diz que não vai à rua dia 20, pois não se sente representada pelo governo e não pode dar a cara a tapa para defender algo que avilta suas convicções.

De fato, quanto mais a direita do ódio aperta Dilma, mais à direita ela se encaminha, deixando a esquerda numa posição muito difícil quando espera seu apoio para manter a segurança jurídica e a estabilidade política de seu governo.

Mas, será mesmo que a manifestação do dia 16 foi apenas uma manifestação contra Dilma e o PT? E, se foi, isso faz da manifestação do dia 20, necessariamente, a favor de Dilma e do PT? Ou será que a manifestação do dia 16 também foi contra os direitos humanos, a ampla defesa, o devido processo legal, a presunção de inocência, os direitos das mulheres, os direitos das pessoas negras, o direito à liberdade religiosa, os direitos LGBTT, os movimentos sociais, a ordem democrática, o processo eleitoral, o sistema representativo, a organização pluripartidária, a liberdade de expressão, a separação de poderes? E, sendo assim, isso não faz do dia 20 um dia de defesa de todos esses institutos democráticos, muito mais que um dia para apoiar Dilma e o PT?

Ir à rua no próximo dia 20 é declarar que está de acordo com toda a política do governo Dilma e com o petismo lulista, e dar carta branca ao governo? Ir à rua dia 20 significa ser governista?

Ou ir à rua no dia 20 é uma resposta à direita fascista, um dia de luta para defender a democracia?

Para a esquerda pura e verdadeira, não se deve sair às ruas, pois ela também é oposição e não irá mobilizar forças para defender o governo. Mas não se deve ir à rua para defender a democracia? A mais pura, a puríssima esquerda, que tem estofo teórico, deve responder que a própria democracia é um valor burguês e só se deve sair às ruas para fazer a revolução do proletariado.

E você? Vai? Eu não posso, porque tenho que trabalhar…