Balanço das manifestações: um olhar estatístico

Foto de Antonio Thomás Koenigkam Oliveira

Nem uma semana se passou e já vimos todo tipo de análise das manifestações do último domingo, dia 16 de agosto.

Circulam fotos de cartazes e vídeos os mais variados, que mostram um caleidoscópio de pautas dos torcedores-manifestantes, desde a aversão ao “comunismo” petista a pedidos de volta da monarquia e clamores de intervenção militar. Temos os casos engraçados de deturpação da língua portuguesa e da história – gente que não consultou um dicionário para elaborar sua frase de protesto e outros que acham que a União Soviética existe até hoje.

Além das amostras de anacronismo e de crenças boçais, os cidadãos que saíram às ruas destilaram o bom e velho ódio da família tradicional brasileira. Essa ópera se resume à revolta diante dos privilégios ameaçados e pela raiva candente de ter de conviver com o “preto pobre da periferia” nos shoppings e noutros ambientes destinados à elite branca e à classe média de raiz.

Porém, não é do meu interesse entrar no mérito dessas questões “profundas” da manifestação do dia dezesseis. Venho chamar a atenção para um ponto pouco abordado pelos analistas de plantão, o qual revela detalhes curiosos: o que podemos aprender com as estatísticas dos protestos?

Ninguém se atenta ao fato de que o Brasil tem 5.561 municípios, mas em apenas 205 houve manifestação – ou seja, em mais de 95% dos municípios brasileiros parece que a população não quis entrar na dança do CarnaCoxinha.

Alguns dirão que isso é irrelevante e que o papel dos protestos deve ser considerado como um todo, em sua devida seriedade. Tudo bem; vejamos alguns pontos de seriedade.

Na cidade de Ouro Fino, Minas Gerais, o número contabilizado de manifestantes foi surpreendente: um total de 10 pessoas. Dez mil? Não, não: foram 10 mesmo, dava para contar nos dedos. Será que era só a família do Menino da Porteira?

Caso semelhante vimos na cidade gaúcha de Rio Grande, quase na divisa com o Uruguai: de acordo com os organizadores e com a polícia, 15 manifestantes saíram às ruas – ou seja, algo em torno de 0,007% da população rio-grandense de 200 mil habitantes. Esse número representa exatamente o quê? Seria a chance de nascer um bebê anencéfalo em um país ou o percentual de bactérias em uma determinada solução aquosa?

Utilizando esse mesmo critério numérico, posso dizer que no elevador aqui do prédio participo frequentemente de manifestações contra o clima: todo mundo protestando contra o calor ou contra a indecisão da chuva que não veio.

Há quem diga que os números menores não importam, embora entrem na contagem final do bolo. E o que nos dizem os números que saltam aos olhos, então? No rol das duzentas e cinco cidades onde os manifestantes saíram às ruas, a contagem dos organizadores é nitidamente maior que a feita pela polícia militar: no frigir dos ovos dos resultados divulgados, a polícia contabilizou 879 mil participantes, enquanto os organizadores apresentaram o número de 2 milhões (pouco mais que o dobro de diferença).

Mas até aí tudo bem, é de se esperar que os organizadores de um evento tentem extrapolar a realidade em seu favor – isso é uma espécie de regra geral para manifestações, quer sejam elas da direita raivosa ou da esquerda festiva.

Contudo, em algumas cidades a contagem dos organizadores superou bastante a dos policiais: em Goiânia chegou a ser sete vezes maior; em Campinas, nove vezes. Temos casos extremos, como em Capivari, interior de São Paulo, onde os organizadores contaram um número de manifestantes 13 (treze!) vezes maior do que o apresentado pelos policiais – ficou pior que piada de bêbado.

E como explicar que em certas cidades o número contabilizado pela polícia foi MAIOR que o número apresentado pelos organizadores?

Não parece muito lógico, mas o fato é que em seis cidades os policiais apareceram com resultados maiores: Foz do Iguaçu, PR; Erechim e Cruz Alta, RS; Jaguará do Sul, SC; Gurupi, TO e Ipatinga, MG. Em Erechim a polícia chegou a contar 2 mil presentes em face do total de 1 mil apresentado pelos organizadores. Um dia ainda entenderemos esse estranho fenômeno.

Não menos interessante também é notar as coincidências de contagem. Em Curitiba, a nova capital do Brasil, a polícia militar acertou na mosca com os organizadores o número de torcedores presentes: contaram 60 mil. Engraçado que em outras cidades paranaenses, como em Maringá, em Cianorte e em Londrina, o cálculo da PM bateu certinho com o dos matemáticos da organização. Será que a polícia do Beto Richa ajudou a organizar o evento? Ou será esse mais um sinal da perfeição do caráter do juiz Sérgio Moro que se irradiará até purificar o Brasil de todas as formas de corrupção? É de se pensar.

Enfim, tais considerações estatísticas podem ser mera curiosidade de uma investigação detalhista. Talvez sirvam para ilustrar um dos caminhos de criação da imagem de um suposto “movimento popular”: uma imagem que dá coesão, volume e identidade a uma multidão usada para endossar interesses políticos de um grupo específico que deseja o poder. Ou, quem sabe, cada manifestante-número servirá de base para um fortuito tapa na cara da nossa democracia.

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NOTA: os dados aqui apresentados foram obtidos através desta bela página que a Globo criou para acompanhar o histórico das manifestações pró-impeachment: < http://especiais.g1.globo.com/politica/mapa-manifestacoes-no-brasil/16-08-2015/ >