“Levem-me ao seu líder…”

Foto de Hernán Piñera

[texto de Mauro Rebelo]

Como em um filme B de ficção científica, a presidente se oferece para receber os ‘lideres’ dos movimentos populares e suas reivindicações.

Para mim, essa frase representa esperança vazia a que se apega uma geração que apesar de usar a internet não entende de verdade o que ela significa e as mudanças que causou e continuará a causar no mundo. A esperança que poderá trazer para a sua zona de conforto uma batalha que ela não sabe, não tem como vencer. Não tem como vencer porque não entende, nem ela nem seus marqueteiros, o que é e como acontece a Internet.

Nessas últimas semanas ouvi de tudo: citações de Ulisses Guimarães, Maria Antonieta, gente pedindo para Brizola ressussitar e nos liderar novamente no levante popular. Generais, Hitler, Ganhdi, Che Guevara, Jesus Cristo… todos eles apareceram, como se o que está acontecendo fosse um ‘déjà vu’.

Não é! Não vai acontecer o que aconteceu na revolução francesa, nem na russa, nem na indiana, nem na cubana, nem em nenhuma outra, por uma razão muito simples: não havia internet! Não haviam smartphones, Não havia comunicação instantânea e irrestrita de texto, áudio e vídeo.

O mais curioso talvez seja ver essas pessoas usarem o facebook e o Twitter para mandar suas mensagens, que não poderiam ser mais anacrônicas e não poderiam criar um paradoxo maior: a busca de lideranças através da ferramenta de comunicação mais descentralizada que já existiu.

Quando eu era criança, os Jetson diziam para gente como seria o ano 2000: carros voadores, empregados robôs, pílulas alimentares. Ninguém previu a internet, ninguém conseguiu ainda entender direito do que ela é capaz para formar uma teoria consistente (talvez nunca consigam) e agora que vemos do que ela capaz, talvez possamos começar a entender o seu grande poder e como lidar com ele.

Porque me julgo capaz de falar sobre isso? Porque como ativista da educação a distância, da inclusão digital e científica, lido todos os dias com isso: pessoas que se rescindem do poder. Poder de saber como as coisas funcionavam e que agora não sabem mais, poder de saber o que esperar e agora não saberem mais, poder de saber que existia alguém para fazer as coisas por elas e que agora não existe mais. Poder se saber que se desse merda, tinha como alguém controlar a situação, e agora não existe mais. O professor não consegue se libertar (da ilusão de poder) que o atual sistema de ensino (onde ele supostamente domina o conhecimento, a sala de aula e o aluno) e o político não consegue se libertar do poder (esse não tão ilusório, pelo menos até a próxima eleição) que a estrutura politica atual lhe confere.

Dilma, os sociólogos, os antropólogos, os lideres partidários, os políticos, os sindicalistas, meus amigos… todos querem que exista um líder porque essa parece ser a única maneira que existe para que haja uma negociação. Querem encaixar o problema em uma categoria que eles ‘saibam’ como resolver. O filósofo Abraham Maslow disse “Se sua unica ferramenta é um martelo, você tende a ver todo problema como um prego”. Nossos políticos, incluindo nossa presidenta, e vários dos meus amigos gostariam disso: que nosso problema fosse um prego, para que sua unica ferramenta, o martelo, pudesse resolver. Vou dizer uma coisa: as ferramentas que temos não são suficientes para lidar com o que está acontecendo, e forçar o problema dentro de uma das categorias existentes, não vai ajudar: precisamos de novas ferramentas!

Quem inventou a internet? Quem é o seu líder? Li recentemente que mesmo se quisessem desligar a internet hoje, isso não seria possível. Alguém, em algum lugar, ligaria o plug, outro plug, novamente.

Se Dilma, ou quem quer que seja quer ter uma mínima chance de entender o que está acontecendo para criar uma maneira de lidar com isso, deve começar estudando o que é a Internet e como ela funciona, porque apesar de ser descentralizada, ela é organizada e funciona. São camadas, níveis hierárquicos, sistemas paralelos. Ninguém tem a chave, porque não existe só uma chave. Todo mundo tem uma chave. O poder individual é menor, a responsabilidade individual é maior. Estude um pouco a guerra entre o Napster e a industria fonográfica e termine com uma lição sobre Lawrence Lessig.

É um admirável mundo novo. É um movimento descentralizado e isso não o torna menos poderoso: o torna mais poderoso! Os políticos, e meus amigos adormecidos, estão insistindo em utilizar as mesmas ferramentas de antes: partidos políticos, associações de moradores, sindicatos, igrejas, assembleias, grupos, líderes… tudo isso é válido, é correto, é importante, mas não é suficiente para realizar o potencial de interação entre as pessoas desde que existe a internet.

Nossa presidente parece ir no caminho de lutar para se manter com o nariz para fora d’água nadando contra corrente desse ‘admirável mundo novo’, como fez a industria fonográfica e tantas outras (a academia é outro exemplo). Se pelo menos ela visse que existe uma oportunidade única de lutar para CRIAR esses mecanismos de representação dessa informação e energia descentralizada da internet (que não existem, em nenhum lugar do mundo) e LIDERAR uma nova forma de fazer política de maneira ainda mais democrática, aí sim, ela seria merecedora do meu voto*.

 

*Esse texto é do ScienceBlogs, publicado em jun/2013.

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